03/03/2008

Modos de ver de ver de perto


Olhar de Perto é o título de uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga que nos mostra um conjunto de painéis que foram uma parte integrante do retábulo-mor da Sé de Évora. Trata-se de pintura flamenga dos inícios do século XVI, que será possivelmente a segunda solução retabular encontrada para aquele espaço de fundação medieval. Nas obras ocorridas no século XVIII o retábulo foi destruído, apenas tendo sido salvaguardadas treze pinturas sobre a Vida da Virgem e seis pinturas representando Cenas da Paixão de Cristo. Estas poderiam fazer parte da predela ou, segundo outras hipóteses, constituírem-se como um retábulo autónomo.
Este conjunto de pinturas passou por inúmeras vicissitudes ao longo destes anos.
A presente exposição, para além de nos mostrar aquelas obras, mostra-nos também a investigação e a metodologia do restauro realizado no Instituto de Conservação e Restauro desde 2004 até à presente data.
Este acontecimento, temporário no MNAA (até 20 de Abril de 2008), pode ser fruído com vários modos de ver.
O primeiro será podermos Olhar de Perto uma verdade pictórica que apenas poderia ser vista de longe e durante poucos dias quando se encontrava no local de origem.
O segundo será compreendermos o modo criterioso com que pode ser feito um restauro.
O terceiro possibilita o confronto da dimensão do espaço sagrado cristão, para onde os painéis foram criados (Sé de Évora), com a dimensão do espaço sagrado museológico, ecuménico e multicultural no qual se encontram agora.
E um quarto modo de ver poderá focar-se nas tentativas de reconstituição do retábulo original, pensado apenas a partir do conteúdo de cada um dos rectângulos / pinturas e não nas estruturas retabulares que as envolveriam.
Destas quatro preocupações do nosso tempo, a patrimonial, a científica, a ritual, e a interveniente, esta última, socorrendo-se de composições fotográficas e maquetas para especular sobre a possível reconstituição do retábulo original, é o único momento que não reflecte um pensamento contemporâneo.

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