22/05/2017

VIVA ARTE VIVA



A 57ª Bienal de Veneza: Viva Arte Viva!

Viva Arte Viva, o título da 57ª Bienal de Veneza (2017), foi encontrado por Catherine Marcel, a curadora desta grande exposição, a qual tem vindo  a desenvolver trabalho e eventos expositivos que valorizam e colocam o trabalho do artista num campo conceptual de prospecção (Christine Macel, Time Taken: Time at Work in the Work of Art, 2008). Terá sido desta consciencialização que foi criado o departamento Création contemporaine et prospective e se inaugurou  o Espace 315-Galerie Sud no Centro George Pompidou.
Este ponto de vista, levando a que se considere o universo do artista como um universo de sondagem, pesquisa e estudo preliminar essencial para se acharem as «soluções plásticas» que o humanismo carece, não tem sido assunto muito corroborado pelos agentes do mundo da arte atual, devido à dimensão de assunto inconveniente que ele acarreta. Inconveniente porque valoriza mais o processo que conduziu à obra do que a obra em si mesma. Esta corre o risco de ser retirada do campo do endeusamento pra onde foi transportada à custa de muitos argumentos e retóricas periféricas, alheadas das energias e da verdade dos factos. No entanto, apesar disso, este pensamento terá sido plebiscitado positivamente pelo conselho de administração da Bienal. O seu presidente Paolo Barata refere-se ao facto de ter convidado Catherine Macel para a organização da 57ª edição porque o seu trabalho tem permitido «d'observer et d'identifier de nouvelles énergies venues du monde entier». Também Serge Lasvignes, o presidente do Centro Pompidou, diz que Christine Macel «défend une création sans compromis, accompagne les artistes dans leurs tentatives les plus prospectives, ne s’effraie pas face aux formes neuves d’une création en train de s’inventer et de trouver ses voies. »
Viva Arte Viva será, como diz Catherine Marcel, uma exposição feita com artistas, por artistas e para artistas, privilegiando a pesquisa, o estudo, a motivação, a emoção, a intuição,  que conduz o artista diariamente ao seu atelier, ao seu mundo, à sua vida. O atelier é o espaço onde a obra, entre o nascer, o crescer e o morrer, vive  e permanece viva. Depois sairá para o mundo exterior afastada de quem a fez, adotada por muitos outros nas infindáveis paredes de galerias, museus, arquivos e acervos onde permanecem eternamente estáticas e mortas. Mas renascerão sempre que qualquer visitante em qualquer momento se detenha em frente delas. Na realidade a vida da obra foi o tempo passado no atelier, entre o pensamento e a acção do artista. Depois será outro assunto, outro universo.
Quando em 1985 estava fazer o mestrado em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa, com cerca de 15 colegas mestrandos cujas formações académicas vinham das áreas da História, da Filosofia, da Arquitectura e da Arqueologia, sendo eu o único da área das Belas-Artes /Pintura, passava-se a mensagem de que os artistas não deveriam saber exprimir e manifestar as suas pensamentos, processos e ideias na análise das obras de arte históricas porque o pensamento artístico não era teria expressão oral nem escrita, nem era científico. Cimentava-se um estereótipo passando-se uma ideia, ancorada na imagem excêntrica do artista, de que o seu universo mental é irrelevante, devendo mesmo adotar o perfil de ser sensível mas ignorante, ingênuo, esperto ou oportuno, enfim instintivo. O que ele disser será imperceptível, o que fizer será excêntrico, o que escrever será de somenos importância. Neste contexto completei o mestrado com sucesso porque decidi temporariamente experimentar a investigação histórica. Para isso foi decisiva a opção por fazer investigação e uma tese sobre a pintura do século XVI que, aos olhos dos coordenadores do mestrado, era assunto bastante longínquo do universo artística atual, que nunca abandonei,  e muito afim com os cânones do historiador de arte.
Muitos consideram os universos dos artistas muito estranhos, por infringirem normas comportamentais, por pensarem em não-funcionalidades, mas sobretudo por fazerem coisas nunca antes vistas, fora do centro.
Se todos queremos estar atualizados de acordo com os modelos ditados pela nossa época, como se pode entender que alguns não tenham esse objetivo? Como se pode entender que alguém abdique dos paradigmas comportamentais e sociais impostos pela cultura média (mas universal) do efémero e o periódico? Porque haverá alguém que, sozinho no seu universo, procura, investiga e estuda as formas do pensamento até as transformar em forma? Em arte? Coisa difícil de entender! Mesmo incompreensível quando não se considera a parte de dentro.
Trabalhar arduamente sobre nada, sobre uma coisa que não serve para nada, para o mundo materialista, social, política e maioritariamente insensível que nos circunda, é de difícil entendimento. Por isso o artista é visto como um ser socialmente descentrado, como excêntrico, fora do centro, fora da norma. Porém as coisas que ele concebe, depois de saírem de si, entram rapidamente na norma, ocupando todos os pontos de fuga da nossa atenção coletiva.
Todos fomos educados e habituados a ver as obras do lado de fora do atelier, do lado de fora do universo do artista, inseridas nos museus e nas galerias, nos livros e em outras publicações. Este modo de ver tem sido o que tem feito a história da arte, inventariando, acreditando, avaliando e legitimando. Trata-se de uma espécie de trabalho de arqueologia das coisas que o homem fez e  produziu, decalcando e interpretando as realidades envolventes e inventando soluções, excelentemente argumentadas na retórica das diversas áreas científicas que as coletaram. Estamos por isso diante da obra depois de feita, velando ou esquecendo o universo do artista.
Quando falamos do universo do artista não nos referimos à sua biografia e respectivas patologias, mais ou menos expressas entre duas datas, marcando o início e o fim de uma vida dedicada a um feito artístico.
Referimo-nos sim ao processo de trabalho, ao pensamento despendido na concretização do seu projecto artístico, às estratégias, metodologias e opiniões que o levaram a tomar as opções e as obras. Referimo-nos ao longo período que vai entre a ideia e a sua realização. Referimo-nos ao lado de dentro, ao interior do atelier, como testemunha diária das emoções advindas da criação da arte. Referimo-nos ao nascimento da obra em atelier e à vida plena desta, imbuída de imprevistos debaixo a orientação e domínio  da mente do artista.
Referimo-nos ainda ao pensamento à flor da pele, à sensibilidade, à cultura, ao humanismo apenas experienciável pela obra de arte, aquela sobre que muitos se questionam e duvidam  da sua função primordial de consolidação da dimensão  homem, remetendo-a para acantonamentos acessórios que justificam orçamentos políticos irrisórios.
Por isto tudo congratulo-me com os propósitos desta bienal, porque podemos encontrar nela pressupostos conceptuais que valorizam a missão do artista como veículo promotor da matéria humanista que o mundo carece. O atelier do artista é um centro de prospecção, de hipóteses, de interrogações  resultantes, não de encomendas, mas de universos de sensibilidade, onde se fazem sínteses e experienciam vivências concretizadas em obras / propostas que viabilizam o homem no mundo.
Neste evento, e como ponto essencial e fulcral sublinho apenas Artist’s Practice, um projecto disponível na Internet, constituído por pequenos vídeos onde cada artista se refere ao seu processo de trabalho.  E quanto mais não fosse, apenas com este projecto, a dimensão conceptual desta bienal encontrar-se-ia perfeitamente suportada.
Não irei referir os cento e vinte artistas participantes, nem a nenhuma das suas obras em particular porque esse trabalho não me compete. Competirá a outros certamente no futuro.
Desejo simplesmente justificar o meu agrado por todas as Bienais de Veneza do século XXI e em particular esta 57ª Edição. Quando visito a Bienal de Veneza mais importante do que salientar um ou outro artista será perceber o conjunto de todas as participações em função do enquadramento estruturante encontrado e estabelecido, ao modo de congressos com os seus congressistas e as suas audiências presentes, participantes, ativas. Um momento de reflexão global sobre a Vida, sobre a Arte.
Talvez por tudo isto se sintam opiniões mais ou menos críticas que circulam em sites e blogs. Algumas manifestações de desconforto perante uma exposição que privilegia o universo dos artistas. O universo dos artistas, plural, transversal e interdisciplinar, que não se enquadra num único ramo do conhecimento. Enquadra-se em todos!
Todos os artistas devem sentir-se representados nesta bienal, porque o que se valoriza nela é seu universo e não apenas o universo do artista X, do Y ou do Z. O que se deve retirar dela é sobretudo perceber a pertinência na atualidade do universo que os artistas bem conhecem, como local de experimentação e desenho do mundo futuro, através de representações, revisitações e reapropriações de mundos passados. Um espaço de renovação permanente onde o artista faz todas as obras do seu «museu» como o colecionador de livros antigos que na impossibilidade de os possuir, os escreve! (Walter Benjamim, Desempacotando a Minha Biblioteca, 1931).
O artista atreve-se a tanto, com medos e alegrias, com insucessos e triunfos.

Ilídio Salteiro, Lisboa, 2017

19/04/2017

Propostas para "o centro do mundo"



«...Nesta grande exposição, ao longo de mais de 30 divisões, toma-se todo o território do mundo como motivo e desafio de representação. Determina-se-lhe um ponto de ataque, um ponto de alavanca e assinala-se: "o centro do mundo é aqui." Aqui, onde a palavra o diz, através de dísticos sóbrios. O centro do mundo é falado.
No centro do mundo a fala é de concerto e desconcerto: é uma fala que deseja ser, de utopia. Fala de resgate, fala de revolução, fala da Declaração dos Direitos do Homem, por exemplo. Fala-se de cidadania, mas recusa-se a geografia política. Contraria-se os centrismos modernistas e as rotas económicas. O centro do mundo é onde eu penso o mundo, o centro do mundo é onde eu imagino o mundo (Figura 1). O centro do mundo manifesta-se aqui....» João Paulo Queiroz, 2013.

19/07/2016

Rocha de Sousa - A Casa Revisitada - anos 70's


A CASA REVISITADA

A CASA REVISITADA, filme rodado em Super 8 por Rocha de Sousa, baseia-se em alguns sinais de fundo do seu livro de título homónimo, romance que aborda o regresso de um personagem fundador à sua cidade de origem, juntando a memória da velha casa à da velha mãe, entre um amor suspenso — trajecto sobre a ternura, o tempo e a morte, numa magoada meditação sobre o modo de viver, a relação do homem com o seu meio e os desastres do seu tempo.
O filme aglutina tudo isso na figura da mãe, na solidão que lhe resta perante um contexto arruinado pelos anos, gestos que parecem revisitar em pleno quotidiano, a casa protectora, os sinais da sua antiguidade, memória e vida, espera, uma forma de ser.
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THE REVISITED HOUSE

THE REVISITED HOUSE, Super 8 film shot by Rocha de Sousa, is based on some background signals of his book with the same title, a novel that deals with the return of a character to its city of origin, adding the memory of the old house to the memory of his old mother, between a suspended love - on the route over tenderness, time and death, in a painfull meditation about the way to live, man's relationship with its environment and the disasters of his time.
The film brings all together in the mother figure in the solitude she has left before a context ruined by the years, gestures that seem to revisit, in full-everyday, the protecting home, the signs of its antiquity, memory and life, wait, a way to be.

20/05/2016

Ilídio Salteiro, 1998


Ilídio Salteiro, Entrada na montanha, 1998. Óleo sobre tela, 100x100cm.
Pianississimo, Escola de Música do Conservatório Nacional, 25 de Junho a 9 de Jullho 2016 

18/05/2016

Ilídio Salteiro, 1993


Ilídio Salteiro, Fábrica, 1993. Óleo sobre tela, 100x81cm
Pianississimo, Escola de Música do Conservatório Nacional, 25 de Junho a 9 de Jullho 2016

17/05/2016

Ilídio Salteiro, 1992


Ilídio Salteiro, Casa sobre mesa, 1992. Óleo sobre tela, 127x101cm
Pianississimo, Escola de Música do Conservatório Nacional, 25 de Junho a 9 de Jullho 2016

16/05/2016

Dora Iva-Rita, 1994


Dora Iva Rita, Arautos, 1994. Óleo sobre tela, 61x161cm
Pianississimo, Escola de Música do Conservatório Nacional, 25 de Junho a 9 de Jullho 2016

15/05/2016

Dora Iva-Rita, 1994

Dora Iva Rita, Pedro e Inês I e II, 1994. Óleo sobre tela, 161x61cm.
Pianississimo, Escola de Música do Conservatório Nacional, 25 de Junho a 9 de Jullho 2016





14/05/2016

PIANISSÍSSIMO 25 junho 16 horas

Carlos Farinha
Dora Iva Rita
Eduardo Nunes
Gilberto Gaspar
Ilidio Salteiro
João Mateus
José Mouga
Luis Herberto
Maria Capelo
Nélia Caixinha
Sónia Queimado Lima
Teresa Castanheira
Vitor Casimiro

16/04/2016

RAUL PEREZ - Fragmentos


“FRAGMENTOS” pintura e desenho de RAUL PEREZ

A fundação Dom Luís I, em Cascais, abriu-nos as portas no dia 24 de Fevereiro para a exposição “fragmentos” pintura e desenho de Raul Perez.
Num primeiro olhar sobre as obras expostas, evidenciam-se varias secções; Tinta da china sobre papel; gravura; óleo sobre tela. Todas elas com formatos e molduras diferentes. No percorrer do espaço, sente-se uma melancolia nas obras como uma estranha sensação de de um sonho rematado por traços finos que constroem espaços arquitectónicos que transfiguram as naturezas mortas sugerindo uma narração difícil de desvendar. Só mais tarde numa conversa com Raul Perez é que se confirma a misticidade das obras quando o próprio principia a discussão sobre as obras com a pergunta: “que tipo de pintura acabaram de ver?”
A conversa que se seguiu foi a resposta à questão anteriormente feita. O artista revela que as suas obras são instrumentos do seu inconsciente, pois, são manipulações de tinta que se traçam segundo um preenchimento mecânico. Isto é, o artista está fora de si, quando pinta, é um ato puramente irracional. “A razão engendra monstros” cita Goya aprofundando a sua postura inconsciente perante as obras. Tudo o que pinta são sonhos que não são sonhados. Revela talvez uma obsessão em materializar o que não controla, intitula-se como o “caçador dos seus próprios sonhos”. Remata assim, a importância do dualismo pessoal (o que temos exteriormente e interiormente).
O artista termina sugerindo o abandono da razão perante a pintura, para que, a criação artística seja imune a todas as definições que nos são provocadas pelo tempo. Como um verdadeiro sonho não sonhado que é sempre livre.

Mariana Scarpa, Lisboa, 2016

04/04/2016

MIGUEL PROENÇA - Terra Cinza, Tomada de Consciência,

Terra Cinza, Tomada de Consciência
até 22 de Abril de 2016 na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos
Tavira


Aconselha-se!
Assinala-se!
Avisa-se!
Destaca-se!
Indica-se!
Informa-se!
Lembra-se!
Recomenda-se!
Recorda-se!
Sugere-se!
[Ilídio Salteiro, 2016]

22/03/2016

LUÍS HERBERTO - As Brincadeiras de Alex

AS BRINCADEIRAS DE ALEX...
Espaço Cultural das Mercês, Lisboa

[7 a 27 de Abril 2016]

Alex, 2011/ 16. Óleo sobre tela, 130 x 130 cm 

Quem é Alex?

Afinal eram quatro horas da tarde e ainda não tinha visto nada. A exposição que pensei visitar, na Fundação Calouste Gulbenkian, naquele domingo à tarde, deixou-me suspenso à porta, apenas porque não consegui cumprir o que me propuseram: comprar um bilhete a troco de 30 minutos em fila de espera e alguns momentos de fruição da Colecção de Wentworth Fitzwilliam. Tratando-se de uma coisa normal que já fiz centenas de vezes, esta brilhante exposição não se encontrava no âmbito das minhas necessidades. Reconheço indiscutivelmente o seu valor como património artístico e cultural, mas fiquei inquieto quando pensei na imensidão de gente que se encontrava a produzir patrimónios artísticos e culturais naquele mesmo instante, embora noutros locais e com outros meios. Em consequência desta sensação e para preencher devidamente esse fim de domingo, optei por telefonar a um amigo e perguntar-lhe se ele estava no ateliê.
E fui até lá.
Luís Herberto estava a trabalhar telas de médias e grandes dimensões, entre tubos de tinta, óleos, médiuns e pincéis, organizando figurações, retratos e narrativas, arquitetando espaços, registando gestualidades testemunhas de emoções, deixando perceber uma tonalidade média de cor, embora com grandes contrastes, tudo imbuído de referências e citações culturais, umas relativamente explicitas ao género Shunga (Imagens da Primavera) e a Katsushika Hokusai, outras ao expressionismo figurativo de tradição ocidental.
Naquele espaço encontravam-se obras esboçados, outras em plena execução e ainda outras em fase de reflexão mas suscetíveis de serem transformadas. Estava no seio de efervescências criativas, ciente do privilégio de estar desse modo em sintonia com o meu tempo. Tudo isto mereceria um agradecimento por nos ser possível entrar num universo onde a arte se equaciona e faz. E tudo isto deve ser entendido como um grande sentido de responsabilidade porque tudo aquilo que dissermos e conversarmos, naquele contexto, pode interferir no processo, porque temos consciência que, mesmo sem o querermos, como quaisquer outros, somos agentes que podemos acionar ou desencadear outras soluções estéticas. Quais? Só o artista saberá, só ao artista competirá.
Alex é a estrutura do pensamento que desencadeou a produção artística de Luís Herberto nos últimos meses. O título «As brincadeiras de Alex», constitui o enredo de uma narrativa subjacente e subliminar em cada obra. Na visão panorâmica do seu ateliê, com obras encostadas umas sobre as outras, expostas na parede, nas mesas e em cavalete, reflete-se o aprofundamento da sua própria expressão pictórica, através da evidência do toque, da sabedoria do desenho, e por um sentido compositivo que coloca os representados em confronto direto com qualquer observador que delas se aproxime. Percebe-se também um pensamento que transporta para as representações pictóricas as inquietantes questões de género e de sexualidade que se debatem na época atual.
Uma inquietação entre ter expressão e ser género que se revela pertinente tanto na pintura como na vida. Será que para cada género existe uma expressão? O género condiciona a expressão? Quando se fala de género fala-se de pintura ou de pessoas? Quando se fala de expressão fala-se de estilo ou de liberdade? O hibridismo que se verifica hoje nos géneros artísticos é consentâneo com os hibridismos sociais?
A expressão como manifestação do pensamento, resulta de uma possibilidade única, impartilhável, que identifica algo ou alguém pelo modo como se apresenta. O género manifesta-se pela pergunta provocadora que Luís Herberto nos obriga a fazer: Quem é Alex e quais são as suas brincadeiras?
A pintura de Luís Herberto abre-se numa figuração assumida e consciente sem preconceitos de correntes ou vanguardas, onde o modelo não se distingue do retratado ou onde o ator se cruza com a personagem. Deste modo fala-nos tanto das transfigurações, transmutações ou alterações, como das hesitações e conflitos com que os corpos e as almas se debatem hoje. Assuntos que adquirem forma pictórica, retomando um meio verdadeiramente relacional (1). O que levou Marcel Duchamp a afastar-se da pintura em 1912 em Paris, cansado da insensatez e da ingenuidade do círculo dos seus amigos (2), tem sido o que leva Luís Herberto a aproximar-se dela, cem anos depois, em Lisboa, retomando o prazer da arte pelo seu sentido de fazer arte, e por conseguinte pela tomada de consciência de humanidade.
Com uma obra cada vez mais vasta e um longo e cada vez mais consolidado percurso como artista pintor de um período expectante para todos nós, caracterizado pelo fim de um milénio e o inicio de outro, a exposição que Luís Herberto nos propicia, corresponde ao nosso universo, sem anacronismos, com coerência estética, com extremo saber e com uma indiscutível qualidade formal e compositiva.

Ilídio Salteiro, Lisboa 2016.

(1) Bourriaud, Nicolas. Esthétique relationnelle. Dijon: Les press du réel, 1998
(2) Duchamp, Marcel. Engenheiro do Tempo, entrevistas com Pierre Cabanne. Lisboa: Assirio & Alvim, 1990, pp. 24-25

09/03/2016

JOÃO CASTRO SILVA - Ossos

EVOCAÇÃO da GRANDE GUERRA 14-18
Arte Contemporânea, 2016 - 2018
Museu Militar de Lisboa – Salas da Grande Guerra
9 de Março a 30 de Maio de 2016





JOÃO CASTRO SILVA
Ossos

No âmbito do projecto artístico Evocação da I Guerra Mundial, que decorrerá de março de 2016 a novembro de 2018, inaugura-se no próximo dia 9 de março pelas 17 horas, a instalação de João Castro Silva nas Salas da Grande Guerra do Museu Militar de Lisboa.
A obra de João Castro Silva João organiza-se em torno de destroços, sargaços e elementos dispersos, e é através desses fragmentos que se revela, adquirindo forma.
Esta similitude com a guerra, aqui (com)sentida como fator construtivo, num oposto conceptual, sugere e contribui naturalmente para uma aproximação estruturante a esta evocação.
Estas salas, feitas nos anos 30 e revestidas maioritariamente com pinturas de Adriano Sousa Lopes, um pintor que se voluntariou para a frente de combate como pintor de reportagens da guerra, estão imbuídas de uma densidade dramática notável, embora não valorizada pelos eixos modernistas do então, nem muito considerada pelos eixos modernistas do depois.
Neste espaço a escultura de João Castro Silva faz evocação dessa guerra e de todas as outras. Uma evocação comandada pela matéria que constitui um organismo que já foi vivo: a madeira da árvore. Essa madeira, aglutinada em arma de guerra, que deveria ser ferro, e indicada como relíquia de muitos, que deveria ser osso, evidencia a metáfora da fragilidade humana, enquanto companheira de muitas guerras universais e individuais.
A madeira que finge ser osso e ferro acentua a debilidade dos meios de sobrevivência, a ironia da guerra e a humanização dos beligerantes.
Esta obra reflete todas as guerras, desde as pontas de sílex ao nuclear, homenageando acima de tudo a inteligência humana capaz de congeminar soluções que lhe perpetuam o rumo.

Ilídio Salteiro, Lisboa, 2016

11/02/2016

ISABEL SABINO - Os Rios Nascem no Mar - Fundação Júlio Resende - 2015


Quel bon dimanche pour la saison, 2014. Acrílico sobre tela, 12 cm x 195 cm

Isabel Sabino e a luz D’ouro

Júlio Resende (Júlio Martins Resende da Silva Dias, 1917-2011) mancha primeiro, depois reduz, conduz a redução através da linha e da cor exaltada, para territórios inesperados ou já premeditados. Surgem as formas, as surpresas, as narrativas. Progressivamente JR liberta o território do desenhado, aplicando sobre a mancha a memória das suas linhas. A pintura em JR leva a melhor, subleva-se e inunda a superfície, mancha em mancha, como uma base-tema pronta para o debate, mas nunca provocando a sua delimitação, antes pelo contrário, abre todas as possibilidades que a abstração permite. O debate percebe-se pelas linhas que então se desenvolvem sobre as manchas, configurando desenlaces imprevistos, histórias de passagem ou grandes temas que convergem para um argumento.
Isabel Sabino (Isabel Maria Sabino Correia, 1955) franqueia o mundo da pintura pelo mesmo ângulo. Parte de manchas alargadas para, pincelada a pincelada, toque a toque, da cor em cor em estilhaços de tons que se vão abrindo, ir determinando os seus mundos em claros/escuros, como se trabalhasse apenas com luz. Quase que poderia ver JR a trabalhar com a cor e IS a trabalhar com a luz, sendo que ambos trabalhem apenas com a tinta, com a cor.

A urgência deste texto surge precisamente desta semelhança a dois níveis: no procedimento do fazer e na proximidade física das duas obras, pelo facto da exposição de Isabel Sabino se efetuar na fundação de Júlio Resende, espaço do seu atelier e espólio.

Existem muitas formas de pintar e de ser pintor. A obra, que de cada processo advém, é também diferente, assim como diferente será a abordagem de quem a vê. Portanto, falamos de comunicação e de formas de entendimento, falamos de comunhão. Para perceber o outro que fala será necessário descodificar a sua linguagem − a estrutura, o padrão, o fundamento.
Não é fácil ser-se breve e leve porque de parecer tão natural, por vezes, é-se confundido com os estranhos caprichos da natureza. Esta consciência nasce da aflição de querer fazer parecer nascido aquilo que está a ser dito, feito, pintado, mas sem enganar nem confundir. Com um afastamento equilibrado, rigorosíssimo. Quem o achar, alcança a decifração da obra. Percebe o que se debate ali conseguindo refazer um outro processo, só seu, mas que se funde por interação com o do autor.

Este processo de sentir a pintura é um pouco como olhar o todo para depois se focar em determinados elementos. Sendo impossível uma compreensão do todo, cada observação consola-se em criar o seu sistema semântico, engendrando as relações ao sabor da sua própria narrativa subjetiva. Este acaso, só é determinista quando o ente está objetivado em alguma pré ocupação mental, quando tem uma narrativa que lhe ocupa a mente e urge manifestar-se; será então essa objetivação que desencadeia determinada forma. É por isso que se diz que “cada um vê o que lhe ensinaram a ver” ou que “cada um vê o que lhe interessa”. Este ver dirigido torna a perceção da obra de arte muito mais complexa do que aparentemente é. A atitude contemplativa deixa-se levar um pouco mais além do que se é para comungar com a obra, por isso é que também traz mais prazer e debate interior.
Nestes dois autores a paisagem é mental porque a narrativa é imaterial, a cor abstrata, a luz é ideológica. E é pela luz que o debate advém e se oferece em pintura, visto como um todo.

Dora Iva Rita, 2015

23/10/2015

Carlos VIDAL, Invisualidade da Pintura: Uma História de Giotto a Bruce Mauman



Este é um livro sem começo nem fim, enciclopédia pós-hegeliana das ciências filosófico-visuais em epítome ou, de forma mais abreviada, um livro de considerações sobre objectos invisuais e acontecimentos artísticos que subvertem e superam a lógica e o sentido das obras de arte e dos acontecimentos. Em suma. Este é o livro que todos já lemos um dia antes de o termos lido, tal é a natureza polimorfa da sua força interpretativa e o estilo surpreendente das suas linhas de fuga.
CARLOS FRANÇA (Sobre “Invisualidade da Pintura”)

Sul Caravaggio c'è ancora molto da dire, specialmente per quanto riguarda il forte contrasto chiaroscurale. Il Suo piccolo libro rappresenta un'importante scelta di campo e sono certa che sia un contributo che aggiunge qualche cosa di nuovo.
MINA GREGORI (Sobre “Deus e Caravaggio”)


18/10/2015

Museums......


Noah Fischer, Photo: Joanna Warsza


.....Today museums are an important part of the neo-liberal system, which we are protesting on Wall Street. Museums are like temples of this system, actually; they reproduce the logic of the system, reify its symbols, and are financially dependent on it. Actions by Occupy Museums are about opening up a very large, honest, transformative conversation about the presence of money and power in the world of art and culture... (Ler mais / read more)

10/09/2015

João Castro Silva «Draperies» - Sala do Veado, Lisboa

Exposição de João Castro Silva, Draperies, na Sala do Veado



Ensaios do Ver

Panos ao vento, tentativas de redenção. Sobrevidas. Migrantes.
Barcos manhosos, roupas molhadas, rasgadas. Subvidas. Migrantes.
As tábuas flutuam, as roupas encharcam-se, as vidas submergem. Migrantes.
As tábuas unem-se em frágeis jangadas em águas imprevisíveis. Migrantes.




João Castro Silva, Draperies, 2015
Sala do Veado até 27 de Setembro de 2015
Rua da Escola Politécnica, 56 / 58, Lisboa

A migração das formas por entre matérias permite imprevistas trocas semânticas. A migração das ideias por entre as formas elucida os espíritos. Interrogamo-nos sobre a vida como um todo maior do que ela é. A arte traz-nos essa outra realidade onde pode confluir tudo o resto que desejarmos ter como referente. Sem limites ou preconceitos, deixemo-nos migrar para a obra com tudo o que somos.
João Castro Silva consegue incorporar na madeira a ductilidade da água, a leveza do ar, o peso da pedra, a uma estranha espacialidade de luz.
A matéria-prima é madeira de árvores que vencem o nosso tempo, podendo viver na casa dos milhares de anos. A matéria-prima advém de entes de metabolismo mais lento do que o nosso, de verticalidade extraordinária dos seus 70 m de envergadura, com folhas que lembra vegetações de épocas muito mais antigas. A matéria-prima tem um odor agradável e é rosada como a pele do escultor, leve e com uma densidade de 300 a 420 Kg por m3. A Criptoméria-japónica, um tipo de cipreste oriundo da China ou Japão, é hoje endémica em muitos outros locais do mundo, como nos Açores, onde se sobrepôs à floresta autóctone da Laurissilva. É uma forte e resistente, daí o ser uma árvore de culto, envolvendo os santuários e os templos nipónicos.
A madeira é, das matérias-primas da escultura, aquela que mais próxima está da natureza humana. Ao deixar de ser árvore e passar a ser obra de outro arbítrio, transmuta-se e alcança uma outra natureza, aquela que a Humanidade almeja ­ a da Arte ou a do espírito, as que não têm matéria e se cumprem através da matéria do Outro. O escultor dá-lhe outra natureza, não desprezando, no entanto, tudo o que carrega desde a sua origem, por mais desconhecidos que sejam os seus percursos.
O valor semântico de cada peça exposta é tão expressivo, eloquente e diverso, que remete o observador para uma transcendência, transformando-o em contemplador. E também modifica o espaço. Sacraliza-o. O balancear, parece existir e ser permanente, comprometendo o olhar e a preceção do ar em movimento.
As cisões entre as tábuas marcam o todo como veias ou como sulcos de navalha. Ou como um simples padrão riscado de roupagem que já foi vestida. As ideias irrompem à medida que os olhos afagam as superfícies. A delicada leveza das peças e da instalação surpreendem por contrariarem o próprio conceito de matéria esculpida. O têxtil sobrepõe-se-lhe. A ideia sobrepõe-se à matéria. De facto as peças parecem levitar a cima do chão com a ajuda do ar. Ao circular por entre elas percebemos a sua verdadeira natureza, mas aí já a nossa perceção nos encantou. Jogar com estes limites e saber não cair em redundâncias estéticas redutoras ou híper habilidades, demonstra uma criação e saber fazer de mestre. Por instantes vem-nos à memória o assombramento dos Abakans de Magdalena Abakanowicz (1930), os vultos suspensos dos Pronomes de Ana Vieira (1940), a fragilidade cenográfica das instalações de Kaarina Kaikkonen (1952). Também existe o travo de algum acampamento improvisado de migrantes ou de vivências já desusadas da urbanidade mediterrânica.
As tapeçarias alvas, dependuradas em linhas vagas que unem vão a vão e recortam o espaço, são cortinas, separações que escondem do olhar para além de si. Podem ser mortalhas, sudários, mantéis. Podem ser tudo aonde a imaginação ilusória nos transporte. Podem referenciar-se como absurdos ou fascínios, grandes utopias ou pequenas verdades.
Mas são esculturas relevadas em madeira. São trinta e nove peças com escala humana, variando entre os 70 e os 100 cm em altura ou largura, em que o espessamento não ultrapassa os 7 cm. O escultor primeiro une tábuas isoladas, depois talha-as como se fosse santeiro tradicional vestindo alguma figura mística. Castro Silva é também o imaginário mas já só cria abstrações, ou os panejamentos que cobririam hipotéticas figuras. Fá-lo com ferramentas semelhantes mas mais rápidas, numa associação da energia própria ao escultor com a que a eletricidade lhe faculta. O polimento final é também semelhante ao que o imaginário dá à sua imagem e é do domínio da pintura. A pintura encobre a matéria e obriga-a a fingir-se mármore, pele, aumentando o protagonismo semântico das obras.
As cortinas encobrem o que se pretende mais íntimo. A vida é comunitária. Por mais que pareça contraditório. O tecido cobre e mancha-se. A água retira essas marcas, o ar seca-as. Como animal que lambe as feridas para as sarar. A arte sara. É curativa como Louise Bourgeoise (1911-2010) percebeu.
Estamos no ano de 2015 da era de Cristo. Os náufragos do Mediterrâneo são deuses adormecidos como nós. Cada um é um nós. A dor é sempre coletiva, assim como o medo ou a gratidão. A fuga pela sobrevivência é comum a todo o ser vivo. Quando se é migrante procura-se porto seguro junto de outros mais imparciais. Migrar de um para outro é reconhecermo-lo em nós. Civilidade é perceber-se isso e construir sociedades que se cumpram nesse desígnio.
A acuidade percetiva possibilita sentir o outro ‑ a dor, o desejo, o júbilo. A mesma perceção que possibilita que sejamos amantes da Arte, porque ao amar o Outro é para nós que nos dirigimos. Por isto a Arte é o sustentáculo da civilidade e por isso é tão importante saber senti-la, reconhece-la e vê-la. E se possível exercita-la, como João Castro Silva nos sugere.

A exposição instalativa Draperies do escultor João Castro Silva (1966) está a decorrer em Lisboa, na Sala do Veado do Museu de História Natural e da Ciência, até ao dia 27 de setembro de 2015. O museu fica ao Príncipe Real, na Rua da Escola Politécnica, junto ao Jardim Botânico, onde pode passear sob a sombra de uma Criptoméria-japónica. Silenciosamente consigo, entre pela porta da antiga faculdade das Ciências da Universidade de Lisboa e migre pela instalação. Construa o seu barco.

Dora Iva Rita
Lisboa, Setembro de 2015

29/08/2015

A Sala de Ruth - Cadavre Exqui


Cadavre Exqui, é uma exposição colectiva de Ana Eliseu, Bertilio Martins, Ivo, Manuel Furtado dos Santos, Margarida Palma, Miguel Andrade, Oona Grimes, Pedro Proença, Samuel Rama e Susanne Themlitz com obras produzidas a partir de intervenção sobre a gravura «Atlantis» (1971) de Bartolomeu dos Santos.

28/08/2015

22/08/2015

A Sala de Ruth - Miso Ensemble


(anterior)
A Sala de Ruth III
Itinerário do Sal pelo Miso Ensemble

Assim como as características do céu estabelecem circuitos racionais para uma compreensão do todo, as características físicas, os ecossistemas endógenos e exógenos, a criatividade na resolução das adaptações ao meio, são determinantes na linguagem dos pássaros.
Esta “linguagem dos pássaros”, como gosto de lhe chamar, eclodiu ontem, pelo início da noite, na Sala de Ruth, em Tavira. Esses entes semelhantes a pássaros são os Miso Ensemble. Três em um, ou em vários, que fomos todos os que assistimos ao espetáculo multimédia de Miguel, Paula e Perceu Azeguime. E muitos mais haverá por detrás da produção de Itinerários do Sal, uma “opera”, como é caracterizada pelos autores. Um bando de pássaros. Dos mais criativos, dos mais genuínos, dos mais salubres. Têm o mesmo tempo da Casa das Artes de Tavira, onde atuaram pela primeira vez, entre amigos, como hoje na Sala de Ruth.
Enquanto nos pássaros da mesma espécie a linguagem é semelhante, na comunidade dos Homens, existem por vezes alguns de entre os demais, de onde emergem grandes criações com a mesma qualidade e teor. “Quase como por acaso” uns deixam-se penetrar, mais do que os outros, por essa linguagem expressiva, onde todas as artes se misturam e atuam em cooperação com o autor, assim como ele o faz também, como passarinheiro que se deseja pássaro. Com um aparente desgoverno, os autores demonstram uma concentração absoluta, Paula e Perceu aos comandos de uma eletrónica aracnídea, Miguel liderando o cumprimento da rigorosa expressão humana da obra, tornando-a leve e natural como o sopro de um improviso. O desempenho demonstra o empenho, a autenticidade e fundamentalmente o grande fascínio de fazer arte.
O verão está a terminar, seguir-se-ão outros. O céu indicia um agravamento atmosférico. Os cirros começaram por se pintarem de pôr-do-sol, instalando-se pouco a pouco durante os dias. Paredes de estratos e limbo-estratos trouxeram cortinas húmidas à altura do olhar durante a noite. O cheiro da erva seca molhada, misturada com humidade da maresia, invade o coração de emoções contraditórias. O frio parece ter-se instado. A ausência de vento acalmou a superfície do mar. Os cúmulos adensam-se e ameaçam no horizonte. Mas a batalha desenvolve-se nas camadas mais altas da atmosfera. Estou satisfeita pela releitura do The Weather Hand Book. Esta pequena obra lavou as mágoas da História dos homens.
Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008) comove pela singeleza irónica com que conta a guerra e as atrocidades das batalhas. Mickey, toma lugar do herói onírico, metamorfoseando-se em besta de um olhar a outro. Encontramo-lo nos planos mais próximos de nós, reproduzido como num caleidoscópio ébrio. Não percebemos quem é quem. Não tomamos partido. Só sentimos a tremenda ironia da ligação entre a raiva, o desespero e a euforia. Sentimos a poeira do ar inquinado, o ruído surdo, o pisar dos corpos que não conseguiram vencer a gravidade. Ao fundo as bandeiras agitam-se no ar. Vitórias ou derrotas são irrelevantes, como nos jogos infantis... A estranha luta que a ambição, a especulação ou a avareza provocam, dão o mote para esta obra.
Bartolomeu Cid dos Santos doou uma grande parte da sua obra à cidade de Tavira, que não tem mãos para a receber. Deixou-lhe também, através do patrocínio da Casa das Artes de Tavira, uma oficina de gravura idêntica à sua em Londres, na Slade School of Fine Art, onde lecionou e trabalhou. Hoje o seu espírito continua a renascer trabalho após trabalho, residência após residência. A Casa das Artes de Tavira, quando transborda, vai para a porta da Oficina Bartolomeu dos Santos (OBS) e senta-se nas escadinhas que ligam a colina de Sant’Ana ao plano das águas do rio Gilão. Como uma nesga de teatro grego, geralmente, um ecrã faz as vezes de proscénio improvisado e o patamar da porta da OBS transforma-se em terreiro da orquestra. Não existe altar porque as oferendas são intrínsecas à arte.
A última atividade calendarizada para este verão, Cadavre Exquis, é precisamente a apresentação pública das obras produzidas a partir de interações diversos autores sobre uma das gravuras de Bartolomeu, Atlantis de 1971.
Como o Miso Ensemble, diremos que os itinerários do sal são poderosíssimos, embora hoje em dia pouco valorizados. Estando num tempo de interrogações a todos os níveis, a instalação de Ilídio Salteiro, Sala de Ruth, propõe uma paragem para refletir e pensar os rumos que se apresentam ao mundo e à arte contemporânea.



Dora Iva Rita, Santa Bárbara de Nexe, agosto de 2015.

21/08/2015

A Sala de Ruth II


(anterior)
A Sala de Ruth II
A Casa das Artes de Tavira

Há quem se sente e toque o piano ou simplesmente lhe experimente o som. Há quem se sente e folheie uma revista. Há quem todos os dias, já noite, lá entre, bebendo um copo, para ver um pouco do documentário do ídolo da sua juventude holandesa. Também já vi crianças espalhadas pelo chão a manusearem livrinhos. Há quem apenas se sente para contemplar melhor as obras expostas na Sala de Ruth. Eu vou lá para encontrar os amigos que já não são apenas estivais. Tudo isto, para além dos encontros e atividades calendarizadas.

Contemplar uma obra de arte é mais do que tropeçar na vertigem do rompimento do quotidiano. É dialogar com coisas, de aparente natureza inerte, mas que se revelam agentes ativos, atuantes e extraordinariamente permeáveis a quaisquer referentes. A contemplação das obras de arte visuais pode ser tão profunda, completa e gratificante quanto a audição de uma obra musical ou a leitura de um texto literário. A contemplação é um “aCto” distinto, que nos sugere e orienta para a experimentação de níveis diferenciados nas abordagens à vida. Se para isso estivermos disponíveis e, acima de tudo, se o desejarmos…
Há dois dias que acabei de ler os volumes da História das Perseguições Políticas e Religiosas de D. Fernando Garrido, acabando pelas desventuras nacionais entre constitucionalistas e absolutistas. Há dois serões que me sento na sala da Ruth a observar e a escrever mentalmente sobre as obras que tem colecionado. Quando tenho dúvidas é através delas que recebo as respostas.
Marcelino Vespeira (1925-2002) promete-nos um sensível esclarecimento de sensualidade e liberdade ‑ a gestação da semente que refulge, vibra e cresce, como núcleo da obra. A luz-pássaro-pomba que se liberta energicamente denuncia o momento da eclosão. O desfrute do colo feminino solto de uma qualquer árvore, pronto a reproduzir-se. Célula. Acto de amor no limite mais essencial do enigma, como Vespeira sempre desejou a vida.
Pouco se fala de amor na minha leitura estival. Mas nas entrelinhas adivinham-se grandes afetos, dignos de gente em extremos limites vitais e que faz grandes provas disso.
As cores fortes de Pedro Proença (1962) desfazem-se em nuvens de algodão de feira. Doces e pegajosas a lembrar narrativas da infância. Espessas, “matéricas” e fortes. Imprecisa é também a representação e a interação entre os diversos personagens, desenhando-se uma deambulação nos corredores da irracionalidade, entre a brincadeira, o ludismo e o drama.
Tão estranha como a história, descrita na minha leitura, das duas meninas que brincavam com um gatinho vestindo-o de trapos, restos dos seus vestidos. Assim brincavam com o animal doméstico. Infelizmente os trapos eram azuis e brancos. Alguém viu o gatito assim ataviado e as crianças alegres. Alguém as denunciou. Foram presas, assim como suas mães, e passaram cinco anos nos calabouços. Decorriam os anos de 1827-1832 na cidade da Guarda.
Imagino sobre uma tela um duelo de brincar entre João Vieira e João Manuel Vieira (1934 e 1962), pai e filho a pintarem à desgarrada. A paleta vibra e as formas encontram significâncias perigosas, arremedos que um e outro fazem. Punhais, pregos, triângulos vermelhos. Jogos perigosos mas fraternais. As cores vibrantes contrastam, discutem e assumem-se umas perante as outras. Nem uma letra, nem uma palavra. Mas a máscara existe, e a figura central, de olhos vazados, é azul…
D. Miguel perseguia o azul. Tudo o que refletisse a luz nesse comprimento de onda simbolizava o seu inimigo, portanto deveria ser perseguido, preso, torturado para que confessasse a infâmia. Eventualmente liquidado. Mulher portadora inocente de xaile azul a cobrir os ombros, seria por isso incomodada. Nem aqueles cujos olhos fossem de sua natureza azuis escapariam à fúria do rei usurpador. Não sei o que pensaria D. Miguel do céu ou do mar… Também custa acreditar que as fontes da minha leitura sejam verdadeiras… (Mas é geralmente pela inacreditável irracionalidade da brutalidade que os povos acabam por consentir que ela lhes invada e se acomode no quotidiano).
Na Sala de Ruth olhamos para cima do piano e defrontamo-nos com uma obra monocromática, com tom escuro, equivocamente situada entre o magenta, o violeta e o púrpura. O suporte é um segmento circular, com a base horizontal corresponde ao segmento da corda. As linhas são determinadas pelos altos-relevos que se sobrepõem e apenas se percecionam pela sombra que projetam no plano que lhes é inferior. Nesse suporte de forma invulgar, Manuel Batista (1936) evoca topografias de um imaginário racional, como se de maqueta territorial se tratasse, anfiteatros irregulares sobre praças de geometria regular. A geometria dos planos mais baixos contrapõe-se inesperadamente às arritmias das regiões superiores. Destes estranhos anfiteatros podemos antever o poder do mapeamento e da normalização que pode advir através do conhecimento com que nos guia. Mas sobre este mapa tridimensional podemos sobrepor diversos referentes e, seja ele qual for, a coerência será semelhante e o debate interior riquíssimo.
Existem livros que foram lidos há tempos que a memória esquece, mas que construíram o que somos. Gosto de repescar da estante livros já lidos, principalmente quando desejo fazer pausa daquilo que me comprometi fazer na vida. “Quase como por acaso”, são chamados de novo à experimentação, a um novo teste, no embate daquilo que sou com aquilo que cada um deles me pode ainda dar. Ontem descobri ‑ redescobri, melhor dizendo, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização Indianas (Lisboa, Assírio & Alvim, 1997), uma compilação de conferências proferidas em 1942 por Heinrich Zimmer (1890-1943). Recordo-me do quanto foi importante para me situar corretamente num entendimento das questões relacionadas com a filosofia oriental. Na sua releitura, ontem e hoje, aferi se o referencial, que durante estes anos tenho seguido nestes temas, ainda é coerente com o seu pensamento. Senti-me a reler um mapa mental antigo… Neste mapa, as curvas de nível são a poética da cultura e da arte orientais, caminhos por onde se pode ter ainda acesso às praças que fui edificando.
Em cima do mesmo piano está uma escultura de Jorge Vieira (1922-1998), pesada do cobre que a configura. A sombra que a forma projeta, empurrada pela lisura firme da luz dos leds, contém a mesma riqueza pictórica da pequena peça, sendo tão expressiva quanto a obra. O que representa pouco importa de tão genuína ser a forma, podendo-se identificar seres de qualquer espécie. Têm dos vegetais e dos insetos a elegância da leveza ao ar, a fluidez de uma cascata ou a rotundidade das pedras trazidas pela água, dos humanos um incandescente erotismo. Pode invocar um trajeto de glorioso amor, uma qualquer vitória revolucionária, veleiro de dois mastros ao acostar ao destino.
Há momentos assim, plenos, sobretudo ligados à arte. Aqueles que se constituem de música são os mais eficazes. Na vida quotidiana ganham-se dificilmente, mas perdem-se muitíssimos mais no limbo das hipóteses menosprezadas. Desses poucos momentos que nos chegam, alguns existem durante o sono, no sonhado e, frequentemente, não são reconhecidos. Outros nos diálogos, nas leituras, no sonho dos livros, das escritas e das ideias. Estes momentos são salvíticos e sempre transcendentes. Daí haver quem acredite serem obra de divindades. Mas são apenas Arte manifesta e a particularidade do que a qualifica como tal.
Dois retratos angulam-se num dos cantos da sala da Ruth, um formado pela memória icónica dos despojos na obra de Costa Pinheiro (1932), outro pela intensidade da ingenuidade que transparece dos rostos. Reconhecer o outro pelo hábito é recusar de certa forma a profundidade do ser. Apresenta-se pois como ofício indireto do retratar, um equívoco entre a paisagem, a memória e o carisma. Institui-se mais pelo desígnio descritivo do que pela essencialidade de ser criatura. Ivo reconstitui-se, quase perdido de tão ingénuo, na sua autorrepresentação. Oferece-se assustado por quem o olha. Abdica da postura empática, renunciando aos prováveis diálogos que atravessarão a representação do seu rosto. Estranho o drama de se retratar recusando o embate da comunicação elaborada. A cor ilumina-o centralmente. O olhar retrai-se. Um retrato que foge sem se retirar. De outra forma, diferente da utilizada por Costa Pinheiro, apenas retraindo-se até ao não mais saber de si.
Uma outra leitura de férias foi um pequeno e completo The Weather Hand Book. Escrito por Alen Watts (Shrewsbury, Weatherline Books, 1994), permite-nos organizar o nosso raciocínio frente ao céu e perceber o que preconizam as formas, as cores e os movimentos do ar, quando remetido para o céu e para as nuvens. Os indícios são, provavelmente, os mais fortes argumentos para se tomarem decisões acertadas. É bom poder perceber se amanhã vai estar estio ou se de madrugada vai haver borrasca. É bom e dá segurança, aquela que dantes a cultura tradicional tinha e que permitia a confiança das trocas sem colonialismos.
O Nuno Calvet (1932) dá-nos a maioridade estética através duma prova fotográfica. O que parece improvável é realçado. É como deixar de ver figuras imaginárias nas nuvens e passar a olhá-las objetivamente, exatamente aquilo que são. É descobrir o fascínio estético sem efabulações nem fantasias. Mas deixando a permissão para todas as possibilidades de autenticação icónica.
Pela observação dos indícios, quando estamos demasiado perto, não nos podemos aperceber que aí vem uma grande tempestade. Como The Weather Hand Book, os períodos de paragem do trabalho são fundamentais para perceber o todo, onde e como nos integramos.

Do mesmo modo que na Sala de Ruth, a colecionadora de arte que expõe um conjunto de trinta obras na Casa das Artes de Tavira, uma fantasia-fundamento de deambulação estival pela contemplação estética das artes visuais. “Quase como por acaso” a Sala de Ruth abre as suas portas como uma opção redentora de muitos conceitos.
Dora Iva Rita

20/08/2015

Sala de Ruth - Half o'clock


Concerto com Nuno Ferreira na guitarra e Patrícia Proença na bateria, na sala da Ruth, na Casa das Artes de Tavira, no dia 20 de Agosto

18/08/2015

A Sala de Ruth - Joana Bertholo


Apresentação do livro de Joana Bertholo, Inventário do Pó, inspirado na composição musical «Um Argentino no Deserto» de René Bertholo, na Sala de Ruth da Casa das Artes de Tavira em 11 de Agosto de 2015

16/08/2015

Ruth's Room

Ruths Room

Ilídio Salteiro - Installation

Fotografia de Tela Leão


Collector Room
Thirty years in 2015 correspond exactly to fifteen years of the second millennium and another fifteen of the third. The differences between millennia are larger and more evident than other turning points, like that of the centuries, and the transition period is slower, with envisaged doubts and uncertainties.
Facing the uncertainties of the worlds were left only with the preservation of knowledge. This process of passage from one cycle to another sets a backdrop that highlights the overall scope for the collection and the collector; the gradual conscientious-ness of this process has set the plot to celebrate the thirty years of existence of the Casa das Artes de Tavira. The act of collecting corresponds to the safeguarding of knowledge with the purpose of the survival as much in the present as in the future. It becomes the substance that saved Prospero (William Shakespeare) on the island where he is banished, it is the unjustifiable desire to possess that justifies the life of the Cavaliere (The Volcano Lover, Susan Sontag), it is the daily livelihood clutter shown at the Helly Nahmad Gallery (Frieze Master, November 2014), it is the hypothesis of making a world from reflections, from introspections, from debates.
In the space of the Casa das Artes is revealed a work room, a living room for receiving friends, a reconstruction of a room belonging to a collector of Dutch origin, presently living in Tavira. A space enabling started yet always-unending conversations, a space of intimacies, alone or in-group, a space for writing, for audition and for contemplation. A space favouring the start of always unended conversations, a space of intimacies, alone or in-group, a space for writing, for audition and for contemplation.
Beyond the books, photographs of memories, flyers, posters and travel postcards, and a very occasional furniture, this space with an art collection unravels itself, composed by painting, drawing, prints, sculpture, photographs and video, mirroring a great fluency and closeness with art and Portuguese artists, passionately constituted over the last thirty years. The works have gradually been installed through every corner of the room, at times profusely, proposing the sentiment of spirit that sees in art a fundamental object for discovery of other worlds. This collection obviously constitutes her reason for being a person and her primordial contribution for the expansion of the sense of humanity.
The ambiguity and the doubt concerning the veracity of what lays exhibited generates restlessness in the observer, pointing at their own condition as collector, of whatever subject.
Collecting differs from collecting our own contemporary art. This latter mode requires an audacity equaling that of the artists because, through the always uncertain selection based on a specific set of assumptions, collectors dare define art. That is how Ruth constituted an extensive collection that beyond acuity, study, and research, reveals a cultural complicity with the place she has chosen or elected to live and reside and with all those that during these thirty years have passed close to her.



Who is the collector?
           Ruth was born in Volendam, in the Netherlands, in 1953.
           She completed with distinction the Higher Level Piano Course at the Amsterdam Conservatory in 1974.
           She married a visual artist, a political exile, from Tavira, where they came to live in 1975 and from whom she divorced in 1984.
           Since 1980 she teaches music at the Faro Conservatory, simultaneously developing an international musical career on various concertos.
           Ruth is an assiduous presence at Casa das Artes since 1985 actively participating in its activities, as an artist, as a teacher, as a visitor and as a collector.
           Throughout these thirty years Ruth has gathered an interesting collection of photography, drawing, painting, prints and sculpture with which she lives in a house in the Algarve coastal hills. It is a part of that house, her living and reception room, and part of that collection that here and now are reconstructed and exhibited.


The Room
Her house is a place of meeting many friends, especially on warm summer evenings, after dinner and an intense day of heat and beach. During the eighties many artists passed through her house, looking for sustainable cultural alternatives from their world visions. The fascination in discovering a country wanting in cultural and artistic dynamics and the possibility of being able to participate towards its cultural growth were the main causes that stimulated her approximation to Tavira.
But today Ruth is not at home. She left her home with friends and guests and left somewhere in a hurry... A neckerchief on the chair, a forgotten musical score, an open book and a nearby pencil
Where has she gone?
The room is at times full, at others apparently empty, filled with art. Looks like they are dinning, but the room awaits them
 It is nightvery late. Summer night in Tavira, the most pleasant place in the world. Where day and night are the same. That is what has been keeping her and she knows that is precisely why her presence is indifferent. She is always present even when she is absent.
Throughout her life, connected to musical and cultural activities, she was close to the visual arts, acquiring works, without the elementary intuition of commercializing them, but above all with the desire to enjoy them aesthetically, to be accomplice and to be in the discoveries of others, finding glorious solutions for every days triviality.
Aware that things of art and aesthetics serve to activate consciences, Ruths room recreated in CAT, populated with works by artists she knew and that she convivially related to. Ana Hatherly, Bartolomeu Cid do Santos, Catarina Botelho, Costa Pinheiro, Fernanda Fragateiro, Isabel Sabino, Ivo, João Hogan, João Onofre, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, Jorge Vieira, José Faria, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Manuel Batista, Manuel João Vieira, Margarida Palma, João Vieira, Miguel Proença, Nuno Calvet, Paula Rego, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Proença, René Bertholo, Samuel Rama, Susana Themlitz, Vespeira and Xana, represent the refuge, the house nucleus, her habitat, where everyday life and life itself reconnect.