22/05/2017

VIVA ARTE VIVA



A 57ª Bienal de Veneza: Viva Arte Viva!

Viva Arte Viva, o título da 57ª Bienal de Veneza (2017), foi encontrado por Catherine Marcel, a curadora desta grande exposição, a qual tem vindo  a desenvolver trabalho e eventos expositivos que valorizam e colocam o trabalho do artista num campo conceptual de prospecção (Christine Macel, Time Taken: Time at Work in the Work of Art, 2008). Terá sido desta consciencialização que foi criado o departamento Création contemporaine et prospective e se inaugurou  o Espace 315-Galerie Sud no Centro George Pompidou.
Este ponto de vista, levando a que se considere o universo do artista como um universo de sondagem, pesquisa e estudo preliminar essencial para se acharem as «soluções plásticas» que o humanismo carece, não tem sido assunto muito corroborado pelos agentes do mundo da arte atual, devido à dimensão de assunto inconveniente que ele acarreta. Inconveniente porque valoriza mais o processo que conduziu à obra do que a obra em si mesma. Esta corre o risco de ser retirada do campo do endeusamento pra onde foi transportada à custa de muitos argumentos e retóricas periféricas, alheadas das energias e da verdade dos factos. No entanto, apesar disso, este pensamento terá sido plebiscitado positivamente pelo conselho de administração da Bienal. O seu presidente Paolo Barata refere-se ao facto de ter convidado Catherine Macel para a organização da 57ª edição porque o seu trabalho tem permitido «d'observer et d'identifier de nouvelles énergies venues du monde entier». Também Serge Lasvignes, o presidente do Centro Pompidou, diz que Christine Macel «défend une création sans compromis, accompagne les artistes dans leurs tentatives les plus prospectives, ne s’effraie pas face aux formes neuves d’une création en train de s’inventer et de trouver ses voies. »
Viva Arte Viva será, como diz Catherine Marcel, uma exposição feita com artistas, por artistas e para artistas, privilegiando a pesquisa, o estudo, a motivação, a emoção, a intuição,  que conduz o artista diariamente ao seu atelier, ao seu mundo, à sua vida. O atelier é o espaço onde a obra, entre o nascer, o crescer e o morrer, vive  e permanece viva. Depois sairá para o mundo exterior afastada de quem a fez, adotada por muitos outros nas infindáveis paredes de galerias, museus, arquivos e acervos onde permanecem eternamente estáticas e mortas. Mas renascerão sempre que qualquer visitante em qualquer momento se detenha em frente delas. Na realidade a vida da obra foi o tempo passado no atelier, entre o pensamento e a acção do artista. Depois será outro assunto, outro universo.
Quando em 1985 estava fazer o mestrado em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa, com cerca de 15 colegas mestrandos cujas formações académicas vinham das áreas da História, da Filosofia, da Arquitectura e da Arqueologia, sendo eu o único da área das Belas-Artes /Pintura, passava-se a mensagem de que os artistas não deveriam saber exprimir e manifestar as suas pensamentos, processos e ideias na análise das obras de arte históricas porque o pensamento artístico não era teria expressão oral nem escrita, nem era científico. Cimentava-se um estereótipo passando-se uma ideia, ancorada na imagem excêntrica do artista, de que o seu universo mental é irrelevante, devendo mesmo adotar o perfil de ser sensível mas ignorante, ingênuo, esperto ou oportuno, enfim instintivo. O que ele disser será imperceptível, o que fizer será excêntrico, o que escrever será de somenos importância. Neste contexto completei o mestrado com sucesso porque decidi temporariamente experimentar a investigação histórica. Para isso foi decisiva a opção por fazer investigação e uma tese sobre a pintura do século XVI que, aos olhos dos coordenadores do mestrado, era assunto bastante longínquo do universo artística atual, que nunca abandonei,  e muito afim com os cânones do historiador de arte.
Muitos consideram os universos dos artistas muito estranhos, por infringirem normas comportamentais, por pensarem em não-funcionalidades, mas sobretudo por fazerem coisas nunca antes vistas, fora do centro.
Se todos queremos estar atualizados de acordo com os modelos ditados pela nossa época, como se pode entender que alguns não tenham esse objetivo? Como se pode entender que alguém abdique dos paradigmas comportamentais e sociais impostos pela cultura média (mas universal) do efémero e o periódico? Porque haverá alguém que, sozinho no seu universo, procura, investiga e estuda as formas do pensamento até as transformar em forma? Em arte? Coisa difícil de entender! Mesmo incompreensível quando não se considera a parte de dentro.
Trabalhar arduamente sobre nada, sobre uma coisa que não serve para nada, para o mundo materialista, social, política e maioritariamente insensível que nos circunda, é de difícil entendimento. Por isso o artista é visto como um ser socialmente descentrado, como excêntrico, fora do centro, fora da norma. Porém as coisas que ele concebe, depois de saírem de si, entram rapidamente na norma, ocupando todos os pontos de fuga da nossa atenção coletiva.
Todos fomos educados e habituados a ver as obras do lado de fora do atelier, do lado de fora do universo do artista, inseridas nos museus e nas galerias, nos livros e em outras publicações. Este modo de ver tem sido o que tem feito a história da arte, inventariando, acreditando, avaliando e legitimando. Trata-se de uma espécie de trabalho de arqueologia das coisas que o homem fez e  produziu, decalcando e interpretando as realidades envolventes e inventando soluções, excelentemente argumentadas na retórica das diversas áreas científicas que as coletaram. Estamos por isso diante da obra depois de feita, velando ou esquecendo o universo do artista.
Quando falamos do universo do artista não nos referimos à sua biografia e respectivas patologias, mais ou menos expressas entre duas datas, marcando o início e o fim de uma vida dedicada a um feito artístico.
Referimo-nos sim ao processo de trabalho, ao pensamento despendido na concretização do seu projecto artístico, às estratégias, metodologias e opiniões que o levaram a tomar as opções e as obras. Referimo-nos ao longo período que vai entre a ideia e a sua realização. Referimo-nos ao lado de dentro, ao interior do atelier, como testemunha diária das emoções advindas da criação da arte. Referimo-nos ao nascimento da obra em atelier e à vida plena desta, imbuída de imprevistos debaixo a orientação e domínio  da mente do artista.
Referimo-nos ainda ao pensamento à flor da pele, à sensibilidade, à cultura, ao humanismo apenas experienciável pela obra de arte, aquela sobre que muitos se questionam e duvidam  da sua função primordial de consolidação da dimensão  homem, remetendo-a para acantonamentos acessórios que justificam orçamentos políticos irrisórios.
Por isto tudo congratulo-me com os propósitos desta bienal, porque podemos encontrar nela pressupostos conceptuais que valorizam a missão do artista como veículo promotor da matéria humanista que o mundo carece. O atelier do artista é um centro de prospecção, de hipóteses, de interrogações  resultantes, não de encomendas, mas de universos de sensibilidade, onde se fazem sínteses e experienciam vivências concretizadas em obras / propostas que viabilizam o homem no mundo.
Neste evento, e como ponto essencial e fulcral sublinho apenas Artist’s Practice, um projecto disponível na Internet, constituído por pequenos vídeos onde cada artista se refere ao seu processo de trabalho.  E quanto mais não fosse, apenas com este projecto, a dimensão conceptual desta bienal encontrar-se-ia perfeitamente suportada.
Não irei referir os cento e vinte artistas participantes, nem a nenhuma das suas obras em particular porque esse trabalho não me compete. Competirá a outros certamente no futuro.
Desejo simplesmente justificar o meu agrado por todas as Bienais de Veneza do século XXI e em particular esta 57ª Edição. Quando visito a Bienal de Veneza mais importante do que salientar um ou outro artista será perceber o conjunto de todas as participações em função do enquadramento estruturante encontrado e estabelecido, ao modo de congressos com os seus congressistas e as suas audiências presentes, participantes, ativas. Um momento de reflexão global sobre a Vida, sobre a Arte.
Talvez por tudo isto se sintam opiniões mais ou menos críticas que circulam em sites e blogs. Algumas manifestações de desconforto perante uma exposição que privilegia o universo dos artistas. O universo dos artistas, plural, transversal e interdisciplinar, que não se enquadra num único ramo do conhecimento. Enquadra-se em todos!
Todos os artistas devem sentir-se representados nesta bienal, porque o que se valoriza nela é seu universo e não apenas o universo do artista X, do Y ou do Z. O que se deve retirar dela é sobretudo perceber a pertinência na atualidade do universo que os artistas bem conhecem, como local de experimentação e desenho do mundo futuro, através de representações, revisitações e reapropriações de mundos passados. Um espaço de renovação permanente onde o artista faz todas as obras do seu «museu» como o colecionador de livros antigos que na impossibilidade de os possuir, os escreve! (Walter Benjamim, Desempacotando a Minha Biblioteca, 1931).
O artista atreve-se a tanto, com medos e alegrias, com insucessos e triunfos.

Ilídio Salteiro, Lisboa, 2017

19/04/2017

Propostas para "o centro do mundo"



«...Nesta grande exposição, ao longo de mais de 30 divisões, toma-se todo o território do mundo como motivo e desafio de representação. Determina-se-lhe um ponto de ataque, um ponto de alavanca e assinala-se: "o centro do mundo é aqui." Aqui, onde a palavra o diz, através de dísticos sóbrios. O centro do mundo é falado.
No centro do mundo a fala é de concerto e desconcerto: é uma fala que deseja ser, de utopia. Fala de resgate, fala de revolução, fala da Declaração dos Direitos do Homem, por exemplo. Fala-se de cidadania, mas recusa-se a geografia política. Contraria-se os centrismos modernistas e as rotas económicas. O centro do mundo é onde eu penso o mundo, o centro do mundo é onde eu imagino o mundo (Figura 1). O centro do mundo manifesta-se aqui....» João Paulo Queiroz, 2013.