13/01/2018

Mundus novus: algumas cartas para Ilídio Salteiro

Por João Paulo Queiroz




Fig. 1. Ilídio Salteiro, Babel (2), 2017. Óleo sobre tela, 150 cm x 200 cm. Coleção B.E


Neste texto far-se-á uma digressão pela obra plástica do pintor português Ilídio Salteiro. Parte-se do tema global do território, da viagem, da ilha e da utopia, para se relacionar os significantes materiais com os significados imateriais. Enquadra-se a pesquisa do seu último ano de trabalho nas problemáticas mais amplas como o tema do multiculturalismo ou da sustentabilidade. Também a narratividade, os discursos do nosso tempo são colocados como marcos de um questionamento plástico enraizado num percurso com várias décadas. Os livros, alguns livros, algumas folhas contêm pensamentos que o pintor revela como numa visão de um navegador seiscentista.

1. O Pintor Ilídio Salteiro

Ilídio Salteiro nasceu em 1953, em Alpedriz, Portugal. Formou-se em pintura na então Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, prosseguindo depois o seu percurso formativo que inclui o mestrado e o doutoramento, sendo hoje professor de pintura na agora Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Expõe desde 1979, com uma presença constante no panorama artístico português. Sobressai a exposição “o centro do mundo” no Museu Militar de Lisboa, em 2013 (Queiroz, 2013) (Figura 1).
Salteiro é contemporâneo de uma geração de artistas portugueses que estão na transição entre uma neo figuração “pós pop” e uma expressividade influenciada pela movida latina dos anos 80 - das novas arquitecturas pós-modernistas (Itália, Reino Unido, França, Portugal), ao “regresso à pintura”, com movimentos espontâneos como a trans-vanguardia, ou o neo-expressionismo oitentista. Em pano de fundo, um otimismo gerado pela queda das ditaduras ibéricas e pela integração europeia. Tudo isto se traduziu, em Portugal, numa figuração expansiva,  identitária,  disruptiva, onde figuras humanas  rompem paredes e arames, com elementos figurativos icónicos, revisitando os clássicos com novas espessuras de tinta e novos contrastes. Ao mesmo tempo as dimensões das telas ampliam-se e as matérias ganham peso e textura, conduzem a descobertas significantes. A pintura deseja-se um “Corpo sem Órgãos”, aprendem-se lições de Deleuze, Bachelard, Derrida. As porosidades tornam-se significativas, retomam-se narrativas na forma discursiva. Abrem-se aos artistas perspectivas de mercado, com novas Feiras internacionais de arte,  novas Galerias,  novas Coleções, novos Museus (como o CAM, o Museu de Serralves, o renovado Museu do Chiado). Em 1984, com Orwell (2007) mais ou menos distante, lançam-se os primeiros computadores pessoais. O “muro” de Pink Floyd cai, na realidade, em Berlim, em 1989. O mundo torna-se global. A pintura sai de prisões ideológicas e decorativas, caminha-se para um novo circuito de turismo rápido. Há sempre espaço para novos pensamentos plásticos.

     

Fig. 2. Ilídio Salteiro, Babel (3), 2017. Óleo sobre tela, 70 cm x 90 cm.
Fig. 3. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (22), 2017. Óleo sobre tela, 80 cm x 60 cm.
2. Uma respiração feita de musgo

Das vivências no campo, da aldeia onde Salteiro nasceu, alguns jardins, alguns lameiros, alguns riachos. As pedras que se sonham montanhas na imaginação dos pequeninos. A respiração dos pinheiros, o rumor das estradas, a deslocação lenta das nuvens. As brincadeiras de uma criança, que se tornaram o centro de um mundo sonhado, onírico, sem tamanho. As casas, as aberturas, os habitantes, as pontes, os caminhos, as primaveras e o sentir o dilatar dos dias em direção ao verão e ao sul. De todas estas vivências se pressente um Universo de criação (Figura 2) aqui na terra.
Do musgo das pedras, numeram-se construções, planos, traçam-se mapas, rotas, imaginam-se ilhas, ora vazias, ora com seres liliputianos, que escondidos desapareceram. Aguarda-se a maré que faz a vida pequenina respirar, na ria de Faro, onde também se explora a pequenez do agir e do imaginar, e as coisas pequenas se fazem grandes (Figura 3). Assim se fazem os pintores. O olhar que brinca com o mundo é o mesmo que constrói o mundo. Sobre o ribeiro imagina-se uma ponte. Sobre a ponte a estrada. Ao longe a montanha. Aqui perto as areias húmidas pela maré. Estas águas sobem e descem numa pulsação  lunar. Este é um limo vivo, verdescente, que se apodrece e cresce.

     

Fig. 4. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (9), 2017. Óleo sobre tela, 100 cm x 70 cm.
Fig. 5. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (26), 2017. Óleo sobre tela, 80 cm x 60 cm.
3. As casas vazias

Por aqui, nesta e naquela pintura, uma casa lisa, ranhuras por onde se pode espreitar o horizonte, com aberturas por onde se pode espreitar o seu interior.  Lá dentro,  caixas,  salas vazias, onde podemos habitar (Figura 4, Figura 5).  Estas construções são nossas,  abertas para nós,  como Giotto,  que nos frescos de Pádua no-las abriu. Brincava com a perspectiva, inventava escadas,  pórticos,  alpendres,  mezzanines,  púlpitos,  espaços nobres,  explicados,  mas quase sempre impossíveis. Nós que estamos cá fora sabemos que a casa pode ser nossa,  porque já lá habitamos, ou porque para lá as poderemos explorar. Esta arquitetura pintada,  é uma arquitetura sonhada,  como a de Palladio,  como as suas arcadas do centro de Vicenza,  ou a sua Villa Rotonda. Lidos os 10 livros de  arquitetura de Vitrúvio que explicam as colunas, as escadas, os aparelhos da parede, os aquedutos, as divisões de uma casa, as considerações sobre a pureza das águas e as influências do clima. As águas frias e quentes, os frescos e rebocos, os mosaicos e pinturas, os telhados em águas e uma estrutura virtuosa.  Toda a arquitetura  se  basearia nos três princípios da "utilitas" (utilidade), "venustas" (beleza) e "firmitas" (solidez). Três princípios com que a pintura ilude e brinca: não é útil, não é firme, e ilude a beleza do mundo. 


Fig. 6. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (20), 2017. Óleo sobre tela, 100 cm x 70 cm.
3. Os rectângulos

Giotto propõe a “perspectiva naturalis” e assim inventa um personagem do lado de fora do quadro: o observador, eu e tu. É a pensar no que o observador vê que as coisas se arrumam, se pintam, se sobrepõem, se podem espreitar. Pendurados destes rebordos, destes retângulos, espreitamos lá para dentro e vemos. São pinturas que mostram a terra, as ilhas e os rios (Figura 6). Mostram-se coisas ora pequenas, ora grandes, ora são matéria tinta, matéria visão, matéria coisa. Apresentam-nos o nosso interior, parecendo ora dentro, ora fora, de ti, que espreitas.
É uma terra de bons selvagens, que se escondem nas torres, perdidos por faróis antigos, encantados pelos ventos de Ariel, de A Tempestade. Os selvagens destes novos mundos pintam-se com urucum e terra de siena, com azul prússia e terras da úmbria (Rousseau, 1959).


Fig. 7. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (5), 2017. Acrílico sobre tela, 70 cm x 90 cm.


4. As visões ao preço da lepra

Em entrevista (dezembro 2017) Ilídio Salteiro fala-me das visões de um monge no cabo da Finisterra, na Torre de Hércules. Que vira o paraíso para oeste, numa ilha verde, e para lá tinha ido na condição de ser só por sete anos. Era uma ilha perfeita, um paraíso testemunhado aos olhos do clérigo. Tão doce era a visão e a sensação, que findo o prazo, o monge quis ficar. O preço a pagar foi a lepra, o apodrecimento lento de um corpo no paraíso. A lenta maré que se esvazia, e se renova em sofrimento diário, agora Prometeu.
As visões do monge são mostradas, uma a uma, ao longo desta série. Ora com pressa, nos desenhos, ora com vagar e demora, na pasta das pinturas. O  monge contempla o paraíso pagando um preço carnal, preço que é também pago por todos os vivos nas terras verdes e húmidas (Figura 7).

5. As  viagens de Rafael Hitlodeu

Eis uma viagem, a do primeiro homem, e a do último homem. Daqui, talvez, o veterano marinheiro Americo Vespucio (1992), que  descreve a Lorenzo di Medici uma carta sobre a descoberta de mundos novos: "…. na frota a expensas deste Sereníssimo rei de Portugal, corremos e descobrimos, as quais terras nos deve ser permitido chamar Novo Mundo, … a maior parte dizem que, além da equinocial, para a banda do meio-dia, não existia terra continental, mas somente o mar Atlântico, e os que afirmaram haver ai terra negaram que fosse habitada de racionais. Mas o ser esta opinião falsa, e a verdade o contrário, se provou nesta minha última viagem…".
Ora acompanhou sempre Américo Vespuccio um português, Rafael Hitlodeu, que depois de anos deixado à sua sorte, terá uma conversa com Tomás Moro. Uma vez publicada, mudará o mundo. Ilha de lugar nenhum, a primeira "Utopia". Sítio de aberturas, pontos de vista para o exterior. Ou, de aberturas para um interior. Todo um território pensado, representado, cartografado. É um paraíso humano, lugar instável, área de passagem entre mundos, construções sem interior nem exterior, lugares para olhar como visões. De livros, de mapas, de terrenos, terras húmidas onde a natureza respira, onde a linha da maré agita os vivos, os que já foram, os que virão a ser (Figura 7).


Fig. 8. Ilídio Salteiro, Faróis e Tempestades (24), 2017. Acrílico sobre tela, 70 cm x 90 cm.

6. Discussão

Esta é uma viagem adentrada de óleos, de cores azuis cobalto e terras argilosas e túrgidas de limo (Figura 8). A viagem é infinita, pelo mundo fora, mundo mais real que o real “pois naqueles meridianos encontrei terra continental habitada de mais povos e animais que a nossa Europa e a Ásia ou África, e os ares mais temperados e amenos que em qualquer outra região conhecida conforme direi, tratando do que vi ou ouvi digno de notar neste Novo Mundo, segundo se verá mais abaixo....” (Vespucio, 1992).
Ou podíamos estar na ilha de Próspero, aguardando entre cogitações e livros, os náufragos que poderão ser mortos ou salvos. Entre Ariel e Miranda, um engenho de vento e mar, uma Tempestade urdida. O pintor é animalesco e serve para contar a história, como Caliban (Shakespeare) no-la vai contando, um homúnculo cheio de terra, e sulfuroso. Já Próspero, essa mente da ilha, não o vemos, apenas as suas manifestações temporais. E a ilha não existe, não lugar: a Utopia contada a Tomás Moro pelo mesmo Rafael Hitlodeu.
De todos estes mundos novos no-los ilustra e traz Ilídio Salteiro, um Caliban atarefado, sujo de tinta, mas com uma condição para nós: a condição dos vivos.
  
Referências

Deleuze, G. & Guatari, F. (2010) O anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34. ISBN 978-85-7326-446-3.
Orwel, G. (2007) 1984. Lisboa: Antígona. ISBN: 9789726081890
Queiroz, João Paulo (2013) "Propostas para ‘o centro do mundo:’ as pinturas de Ilídio Salteiro" Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (8) pp. 310-319.
Rousseau, Jean-Jacques, (1782), 2001. Rêveries du promeneur solitaire. Col. "Les Classiques de poche". Paris: Livre de Poche.
Shakespeare, de William (2001) A Tempestade. Lisboa: Campo das Letras. Isbn: 9789726104728
Vespucio, Americo (1992)  "Mundus Novus." In Ribeiro, Darcy & Neto, Carlos. A fundação do Brasil: testemunhos 1500-1700. Petrópolis: Vozes, pp. 101-106.


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