23/10/2015

Carlos VIDAL, Invisualidade da Pintura: Uma História de Giotto a Bruce Mauman



Este é um livro sem começo nem fim, enciclopédia pós-hegeliana das ciências filosófico-visuais em epítome ou, de forma mais abreviada, um livro de considerações sobre objectos invisuais e acontecimentos artísticos que subvertem e superam a lógica e o sentido das obras de arte e dos acontecimentos. Em suma. Este é o livro que todos já lemos um dia antes de o termos lido, tal é a natureza polimorfa da sua força interpretativa e o estilo surpreendente das suas linhas de fuga.
CARLOS FRANÇA (Sobre “Invisualidade da Pintura”)

Sul Caravaggio c'è ancora molto da dire, specialmente per quanto riguarda il forte contrasto chiaroscurale. Il Suo piccolo libro rappresenta un'importante scelta di campo e sono certa che sia un contributo che aggiunge qualche cosa di nuovo.
MINA GREGORI (Sobre “Deus e Caravaggio”)


18/10/2015

Museums......


Noah Fischer, Photo: Joanna Warsza


.....Today museums are an important part of the neo-liberal system, which we are protesting on Wall Street. Museums are like temples of this system, actually; they reproduce the logic of the system, reify its symbols, and are financially dependent on it. Actions by Occupy Museums are about opening up a very large, honest, transformative conversation about the presence of money and power in the world of art and culture... (Ler mais / read more)

10/09/2015

João Castro Silva «Draperies» - Sala do Veado, Lisboa

Exposição de João Castro Silva, Draperies, na Sala do Veado



Ensaios do Ver

Panos ao vento, tentativas de redenção. Sobrevidas. Migrantes.
Barcos manhosos, roupas molhadas, rasgadas. Subvidas. Migrantes.
As tábuas flutuam, as roupas encharcam-se, as vidas submergem. Migrantes.
As tábuas unem-se em frágeis jangadas em águas imprevisíveis. Migrantes.




João Castro Silva, Draperies, 2015
Sala do Veado até 27 de Setembro de 2015
Rua da Escola Politécnica, 56 / 58, Lisboa

A migração das formas por entre matérias permite imprevistas trocas semânticas. A migração das ideias por entre as formas elucida os espíritos. Interrogamo-nos sobre a vida como um todo maior do que ela é. A arte traz-nos essa outra realidade onde pode confluir tudo o resto que desejarmos ter como referente. Sem limites ou preconceitos, deixemo-nos migrar para a obra com tudo o que somos.
João Castro Silva consegue incorporar na madeira a ductilidade da água, a leveza do ar, o peso da pedra, a uma estranha espacialidade de luz.
A matéria-prima é madeira de árvores que vencem o nosso tempo, podendo viver na casa dos milhares de anos. A matéria-prima advém de entes de metabolismo mais lento do que o nosso, de verticalidade extraordinária dos seus 70 m de envergadura, com folhas que lembra vegetações de épocas muito mais antigas. A matéria-prima tem um odor agradável e é rosada como a pele do escultor, leve e com uma densidade de 300 a 420 Kg por m3. A Criptoméria-japónica, um tipo de cipreste oriundo da China ou Japão, é hoje endémica em muitos outros locais do mundo, como nos Açores, onde se sobrepôs à floresta autóctone da Laurissilva. É uma forte e resistente, daí o ser uma árvore de culto, envolvendo os santuários e os templos nipónicos.
A madeira é, das matérias-primas da escultura, aquela que mais próxima está da natureza humana. Ao deixar de ser árvore e passar a ser obra de outro arbítrio, transmuta-se e alcança uma outra natureza, aquela que a Humanidade almeja ­ a da Arte ou a do espírito, as que não têm matéria e se cumprem através da matéria do Outro. O escultor dá-lhe outra natureza, não desprezando, no entanto, tudo o que carrega desde a sua origem, por mais desconhecidos que sejam os seus percursos.
O valor semântico de cada peça exposta é tão expressivo, eloquente e diverso, que remete o observador para uma transcendência, transformando-o em contemplador. E também modifica o espaço. Sacraliza-o. O balancear, parece existir e ser permanente, comprometendo o olhar e a preceção do ar em movimento.
As cisões entre as tábuas marcam o todo como veias ou como sulcos de navalha. Ou como um simples padrão riscado de roupagem que já foi vestida. As ideias irrompem à medida que os olhos afagam as superfícies. A delicada leveza das peças e da instalação surpreendem por contrariarem o próprio conceito de matéria esculpida. O têxtil sobrepõe-se-lhe. A ideia sobrepõe-se à matéria. De facto as peças parecem levitar a cima do chão com a ajuda do ar. Ao circular por entre elas percebemos a sua verdadeira natureza, mas aí já a nossa perceção nos encantou. Jogar com estes limites e saber não cair em redundâncias estéticas redutoras ou híper habilidades, demonstra uma criação e saber fazer de mestre. Por instantes vem-nos à memória o assombramento dos Abakans de Magdalena Abakanowicz (1930), os vultos suspensos dos Pronomes de Ana Vieira (1940), a fragilidade cenográfica das instalações de Kaarina Kaikkonen (1952). Também existe o travo de algum acampamento improvisado de migrantes ou de vivências já desusadas da urbanidade mediterrânica.
As tapeçarias alvas, dependuradas em linhas vagas que unem vão a vão e recortam o espaço, são cortinas, separações que escondem do olhar para além de si. Podem ser mortalhas, sudários, mantéis. Podem ser tudo aonde a imaginação ilusória nos transporte. Podem referenciar-se como absurdos ou fascínios, grandes utopias ou pequenas verdades.
Mas são esculturas relevadas em madeira. São trinta e nove peças com escala humana, variando entre os 70 e os 100 cm em altura ou largura, em que o espessamento não ultrapassa os 7 cm. O escultor primeiro une tábuas isoladas, depois talha-as como se fosse santeiro tradicional vestindo alguma figura mística. Castro Silva é também o imaginário mas já só cria abstrações, ou os panejamentos que cobririam hipotéticas figuras. Fá-lo com ferramentas semelhantes mas mais rápidas, numa associação da energia própria ao escultor com a que a eletricidade lhe faculta. O polimento final é também semelhante ao que o imaginário dá à sua imagem e é do domínio da pintura. A pintura encobre a matéria e obriga-a a fingir-se mármore, pele, aumentando o protagonismo semântico das obras.
As cortinas encobrem o que se pretende mais íntimo. A vida é comunitária. Por mais que pareça contraditório. O tecido cobre e mancha-se. A água retira essas marcas, o ar seca-as. Como animal que lambe as feridas para as sarar. A arte sara. É curativa como Louise Bourgeoise (1911-2010) percebeu.
Estamos no ano de 2015 da era de Cristo. Os náufragos do Mediterrâneo são deuses adormecidos como nós. Cada um é um nós. A dor é sempre coletiva, assim como o medo ou a gratidão. A fuga pela sobrevivência é comum a todo o ser vivo. Quando se é migrante procura-se porto seguro junto de outros mais imparciais. Migrar de um para outro é reconhecermo-lo em nós. Civilidade é perceber-se isso e construir sociedades que se cumpram nesse desígnio.
A acuidade percetiva possibilita sentir o outro ‑ a dor, o desejo, o júbilo. A mesma perceção que possibilita que sejamos amantes da Arte, porque ao amar o Outro é para nós que nos dirigimos. Por isto a Arte é o sustentáculo da civilidade e por isso é tão importante saber senti-la, reconhece-la e vê-la. E se possível exercita-la, como João Castro Silva nos sugere.

A exposição instalativa Draperies do escultor João Castro Silva (1966) está a decorrer em Lisboa, na Sala do Veado do Museu de História Natural e da Ciência, até ao dia 27 de setembro de 2015. O museu fica ao Príncipe Real, na Rua da Escola Politécnica, junto ao Jardim Botânico, onde pode passear sob a sombra de uma Criptoméria-japónica. Silenciosamente consigo, entre pela porta da antiga faculdade das Ciências da Universidade de Lisboa e migre pela instalação. Construa o seu barco.

Dora Iva Rita
Lisboa, Setembro de 2015

29/08/2015

A Sala de Ruth - Cadavre Exqui


Cadavre Exqui, é uma exposição colectiva de Ana Eliseu, Bertilio Martins, Ivo, Manuel Furtado dos Santos, Margarida Palma, Miguel Andrade, Oona Grimes, Pedro Proença, Samuel Rama e Susanne Themlitz com obras produzidas a partir de intervenção sobre a gravura «Atlantis» (1971) de Bartolomeu dos Santos.

28/08/2015

A Sala de Ruth - fotografia de Miguel Proença


Fot. Miguel Proença

Esta instalação /exposição pode ser vista até 5 de setembro de 2015

22/08/2015

A Sala de Ruth - Miso Ensemble


(anterior)
A Sala de Ruth III
Itinerário do Sal pelo Miso Ensemble

Assim como as características do céu estabelecem circuitos racionais para uma compreensão do todo, as características físicas, os ecossistemas endógenos e exógenos, a criatividade na resolução das adaptações ao meio, são determinantes na linguagem dos pássaros.
Esta “linguagem dos pássaros”, como gosto de lhe chamar, eclodiu ontem, pelo início da noite, na Sala de Ruth, em Tavira. Esses entes semelhantes a pássaros são os Miso Ensemble. Três em um, ou em vários, que fomos todos os que assistimos ao espetáculo multimédia de Miguel, Paula e Perceu Azeguime. E muitos mais haverá por detrás da produção de Itinerários do Sal, uma “opera”, como é caracterizada pelos autores. Um bando de pássaros. Dos mais criativos, dos mais genuínos, dos mais salubres. Têm o mesmo tempo da Casa das Artes de Tavira, onde atuaram pela primeira vez, entre amigos, como hoje na Sala de Ruth.
Enquanto nos pássaros da mesma espécie a linguagem é semelhante, na comunidade dos Homens, existem por vezes alguns de entre os demais, de onde emergem grandes criações com a mesma qualidade e teor. “Quase como por acaso” uns deixam-se penetrar, mais do que os outros, por essa linguagem expressiva, onde todas as artes se misturam e atuam em cooperação com o autor, assim como ele o faz também, como passarinheiro que se deseja pássaro. Com um aparente desgoverno, os autores demonstram uma concentração absoluta, Paula e Perceu aos comandos de uma eletrónica aracnídea, Miguel liderando o cumprimento da rigorosa expressão humana da obra, tornando-a leve e natural como o sopro de um improviso. O desempenho demonstra o empenho, a autenticidade e fundamentalmente o grande fascínio de fazer arte.
O verão está a terminar, seguir-se-ão outros. O céu indicia um agravamento atmosférico. Os cirros começaram por se pintarem de pôr-do-sol, instalando-se pouco a pouco durante os dias. Paredes de estratos e limbo-estratos trouxeram cortinas húmidas à altura do olhar durante a noite. O cheiro da erva seca molhada, misturada com humidade da maresia, invade o coração de emoções contraditórias. O frio parece ter-se instado. A ausência de vento acalmou a superfície do mar. Os cúmulos adensam-se e ameaçam no horizonte. Mas a batalha desenvolve-se nas camadas mais altas da atmosfera. Estou satisfeita pela releitura do The Weather Hand Book. Esta pequena obra lavou as mágoas da História dos homens.
Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008) comove pela singeleza irónica com que conta a guerra e as atrocidades das batalhas. Mickey, toma lugar do herói onírico, metamorfoseando-se em besta de um olhar a outro. Encontramo-lo nos planos mais próximos de nós, reproduzido como num caleidoscópio ébrio. Não percebemos quem é quem. Não tomamos partido. Só sentimos a tremenda ironia da ligação entre a raiva, o desespero e a euforia. Sentimos a poeira do ar inquinado, o ruído surdo, o pisar dos corpos que não conseguiram vencer a gravidade. Ao fundo as bandeiras agitam-se no ar. Vitórias ou derrotas são irrelevantes, como nos jogos infantis... A estranha luta que a ambição, a especulação ou a avareza provocam, dão o mote para esta obra.
Bartolomeu Cid dos Santos doou uma grande parte da sua obra à cidade de Tavira, que não tem mãos para a receber. Deixou-lhe também, através do patrocínio da Casa das Artes de Tavira, uma oficina de gravura idêntica à sua em Londres, na Slade School of Fine Art, onde lecionou e trabalhou. Hoje o seu espírito continua a renascer trabalho após trabalho, residência após residência. A Casa das Artes de Tavira, quando transborda, vai para a porta da Oficina Bartolomeu dos Santos (OBS) e senta-se nas escadinhas que ligam a colina de Sant’Ana ao plano das águas do rio Gilão. Como uma nesga de teatro grego, geralmente, um ecrã faz as vezes de proscénio improvisado e o patamar da porta da OBS transforma-se em terreiro da orquestra. Não existe altar porque as oferendas são intrínsecas à arte.
A última atividade calendarizada para este verão, Cadavre Exquis, é precisamente a apresentação pública das obras produzidas a partir de interações diversos autores sobre uma das gravuras de Bartolomeu, Atlantis de 1971.
Como o Miso Ensemble, diremos que os itinerários do sal são poderosíssimos, embora hoje em dia pouco valorizados. Estando num tempo de interrogações a todos os níveis, a instalação de Ilídio Salteiro, Sala de Ruth, propõe uma paragem para refletir e pensar os rumos que se apresentam ao mundo e à arte contemporânea.



Dora Iva Rita, Santa Bárbara de Nexe, agosto de 2015.

21/08/2015

A Sala de Ruth II


(anterior)
A Sala de Ruth II
A Casa das Artes de Tavira

Há quem se sente e toque o piano ou simplesmente lhe experimente o som. Há quem se sente e folheie uma revista. Há quem todos os dias, já noite, lá entre, bebendo um copo, para ver um pouco do documentário do ídolo da sua juventude holandesa. Também já vi crianças espalhadas pelo chão a manusearem livrinhos. Há quem apenas se sente para contemplar melhor as obras expostas na Sala de Ruth. Eu vou lá para encontrar os amigos que já não são apenas estivais. Tudo isto, para além dos encontros e atividades calendarizadas.

Contemplar uma obra de arte é mais do que tropeçar na vertigem do rompimento do quotidiano. É dialogar com coisas, de aparente natureza inerte, mas que se revelam agentes ativos, atuantes e extraordinariamente permeáveis a quaisquer referentes. A contemplação das obras de arte visuais pode ser tão profunda, completa e gratificante quanto a audição de uma obra musical ou a leitura de um texto literário. A contemplação é um “aCto” distinto, que nos sugere e orienta para a experimentação de níveis diferenciados nas abordagens à vida. Se para isso estivermos disponíveis e, acima de tudo, se o desejarmos…
Há dois dias que acabei de ler os volumes da História das Perseguições Políticas e Religiosas de D. Fernando Garrido, acabando pelas desventuras nacionais entre constitucionalistas e absolutistas. Há dois serões que me sento na sala da Ruth a observar e a escrever mentalmente sobre as obras que tem colecionado. Quando tenho dúvidas é através delas que recebo as respostas.
Marcelino Vespeira (1925-2002) promete-nos um sensível esclarecimento de sensualidade e liberdade ‑ a gestação da semente que refulge, vibra e cresce, como núcleo da obra. A luz-pássaro-pomba que se liberta energicamente denuncia o momento da eclosão. O desfrute do colo feminino solto de uma qualquer árvore, pronto a reproduzir-se. Célula. Acto de amor no limite mais essencial do enigma, como Vespeira sempre desejou a vida.
Pouco se fala de amor na minha leitura estival. Mas nas entrelinhas adivinham-se grandes afetos, dignos de gente em extremos limites vitais e que faz grandes provas disso.
As cores fortes de Pedro Proença (1962) desfazem-se em nuvens de algodão de feira. Doces e pegajosas a lembrar narrativas da infância. Espessas, “matéricas” e fortes. Imprecisa é também a representação e a interação entre os diversos personagens, desenhando-se uma deambulação nos corredores da irracionalidade, entre a brincadeira, o ludismo e o drama.
Tão estranha como a história, descrita na minha leitura, das duas meninas que brincavam com um gatinho vestindo-o de trapos, restos dos seus vestidos. Assim brincavam com o animal doméstico. Infelizmente os trapos eram azuis e brancos. Alguém viu o gatito assim ataviado e as crianças alegres. Alguém as denunciou. Foram presas, assim como suas mães, e passaram cinco anos nos calabouços. Decorriam os anos de 1827-1832 na cidade da Guarda.
Imagino sobre uma tela um duelo de brincar entre João Vieira e João Manuel Vieira (1934 e 1962), pai e filho a pintarem à desgarrada. A paleta vibra e as formas encontram significâncias perigosas, arremedos que um e outro fazem. Punhais, pregos, triângulos vermelhos. Jogos perigosos mas fraternais. As cores vibrantes contrastam, discutem e assumem-se umas perante as outras. Nem uma letra, nem uma palavra. Mas a máscara existe, e a figura central, de olhos vazados, é azul…
D. Miguel perseguia o azul. Tudo o que refletisse a luz nesse comprimento de onda simbolizava o seu inimigo, portanto deveria ser perseguido, preso, torturado para que confessasse a infâmia. Eventualmente liquidado. Mulher portadora inocente de xaile azul a cobrir os ombros, seria por isso incomodada. Nem aqueles cujos olhos fossem de sua natureza azuis escapariam à fúria do rei usurpador. Não sei o que pensaria D. Miguel do céu ou do mar… Também custa acreditar que as fontes da minha leitura sejam verdadeiras… (Mas é geralmente pela inacreditável irracionalidade da brutalidade que os povos acabam por consentir que ela lhes invada e se acomode no quotidiano).
Na Sala de Ruth olhamos para cima do piano e defrontamo-nos com uma obra monocromática, com tom escuro, equivocamente situada entre o magenta, o violeta e o púrpura. O suporte é um segmento circular, com a base horizontal corresponde ao segmento da corda. As linhas são determinadas pelos altos-relevos que se sobrepõem e apenas se percecionam pela sombra que projetam no plano que lhes é inferior. Nesse suporte de forma invulgar, Manuel Batista (1936) evoca topografias de um imaginário racional, como se de maqueta territorial se tratasse, anfiteatros irregulares sobre praças de geometria regular. A geometria dos planos mais baixos contrapõe-se inesperadamente às arritmias das regiões superiores. Destes estranhos anfiteatros podemos antever o poder do mapeamento e da normalização que pode advir através do conhecimento com que nos guia. Mas sobre este mapa tridimensional podemos sobrepor diversos referentes e, seja ele qual for, a coerência será semelhante e o debate interior riquíssimo.
Existem livros que foram lidos há tempos que a memória esquece, mas que construíram o que somos. Gosto de repescar da estante livros já lidos, principalmente quando desejo fazer pausa daquilo que me comprometi fazer na vida. “Quase como por acaso”, são chamados de novo à experimentação, a um novo teste, no embate daquilo que sou com aquilo que cada um deles me pode ainda dar. Ontem descobri ‑ redescobri, melhor dizendo, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização Indianas (Lisboa, Assírio & Alvim, 1997), uma compilação de conferências proferidas em 1942 por Heinrich Zimmer (1890-1943). Recordo-me do quanto foi importante para me situar corretamente num entendimento das questões relacionadas com a filosofia oriental. Na sua releitura, ontem e hoje, aferi se o referencial, que durante estes anos tenho seguido nestes temas, ainda é coerente com o seu pensamento. Senti-me a reler um mapa mental antigo… Neste mapa, as curvas de nível são a poética da cultura e da arte orientais, caminhos por onde se pode ter ainda acesso às praças que fui edificando.
Em cima do mesmo piano está uma escultura de Jorge Vieira (1922-1998), pesada do cobre que a configura. A sombra que a forma projeta, empurrada pela lisura firme da luz dos leds, contém a mesma riqueza pictórica da pequena peça, sendo tão expressiva quanto a obra. O que representa pouco importa de tão genuína ser a forma, podendo-se identificar seres de qualquer espécie. Têm dos vegetais e dos insetos a elegância da leveza ao ar, a fluidez de uma cascata ou a rotundidade das pedras trazidas pela água, dos humanos um incandescente erotismo. Pode invocar um trajeto de glorioso amor, uma qualquer vitória revolucionária, veleiro de dois mastros ao acostar ao destino.
Há momentos assim, plenos, sobretudo ligados à arte. Aqueles que se constituem de música são os mais eficazes. Na vida quotidiana ganham-se dificilmente, mas perdem-se muitíssimos mais no limbo das hipóteses menosprezadas. Desses poucos momentos que nos chegam, alguns existem durante o sono, no sonhado e, frequentemente, não são reconhecidos. Outros nos diálogos, nas leituras, no sonho dos livros, das escritas e das ideias. Estes momentos são salvíticos e sempre transcendentes. Daí haver quem acredite serem obra de divindades. Mas são apenas Arte manifesta e a particularidade do que a qualifica como tal.
Dois retratos angulam-se num dos cantos da sala da Ruth, um formado pela memória icónica dos despojos na obra de Costa Pinheiro (1932), outro pela intensidade da ingenuidade que transparece dos rostos. Reconhecer o outro pelo hábito é recusar de certa forma a profundidade do ser. Apresenta-se pois como ofício indireto do retratar, um equívoco entre a paisagem, a memória e o carisma. Institui-se mais pelo desígnio descritivo do que pela essencialidade de ser criatura. Ivo reconstitui-se, quase perdido de tão ingénuo, na sua autorrepresentação. Oferece-se assustado por quem o olha. Abdica da postura empática, renunciando aos prováveis diálogos que atravessarão a representação do seu rosto. Estranho o drama de se retratar recusando o embate da comunicação elaborada. A cor ilumina-o centralmente. O olhar retrai-se. Um retrato que foge sem se retirar. De outra forma, diferente da utilizada por Costa Pinheiro, apenas retraindo-se até ao não mais saber de si.
Uma outra leitura de férias foi um pequeno e completo The Weather Hand Book. Escrito por Alen Watts (Shrewsbury, Weatherline Books, 1994), permite-nos organizar o nosso raciocínio frente ao céu e perceber o que preconizam as formas, as cores e os movimentos do ar, quando remetido para o céu e para as nuvens. Os indícios são, provavelmente, os mais fortes argumentos para se tomarem decisões acertadas. É bom poder perceber se amanhã vai estar estio ou se de madrugada vai haver borrasca. É bom e dá segurança, aquela que dantes a cultura tradicional tinha e que permitia a confiança das trocas sem colonialismos.
O Nuno Calvet (1932) dá-nos a maioridade estética através duma prova fotográfica. O que parece improvável é realçado. É como deixar de ver figuras imaginárias nas nuvens e passar a olhá-las objetivamente, exatamente aquilo que são. É descobrir o fascínio estético sem efabulações nem fantasias. Mas deixando a permissão para todas as possibilidades de autenticação icónica.
Pela observação dos indícios, quando estamos demasiado perto, não nos podemos aperceber que aí vem uma grande tempestade. Como The Weather Hand Book, os períodos de paragem do trabalho são fundamentais para perceber o todo, onde e como nos integramos.

Do mesmo modo que na Sala de Ruth, a colecionadora de arte que expõe um conjunto de trinta obras na Casa das Artes de Tavira, uma fantasia-fundamento de deambulação estival pela contemplação estética das artes visuais. “Quase como por acaso” a Sala de Ruth abre as suas portas como uma opção redentora de muitos conceitos.
Dora Iva Rita

20/08/2015

Sala de Ruth - Half o'clock


Concerto com Nuno Ferreira na guitarra e Patrícia Proença na bateria, na sala da Ruth, na Casa das Artes de Tavira, no dia 20 de Agosto

Depois da ARCO Lisboa 2026 e Edgar Morin

Como o Mundo pode ser dividido de muitas formas, uma delas é a seguinte: por um lado, temos a cultura, por outro temos a ignorância. Seres c...