09/11/2015
03/11/2015
23/10/2015
Carlos VIDAL, Invisualidade da Pintura: Uma História de Giotto a Bruce Mauman
Este é um livro sem começo nem fim,
enciclopédia pós-hegeliana das ciências filosófico-visuais em epítome ou, de
forma mais abreviada, um livro de considerações sobre objectos invisuais e
acontecimentos artísticos que subvertem e superam a lógica e o sentido das
obras de arte e dos acontecimentos. Em suma. Este é o livro que todos já lemos
um dia antes de o termos lido, tal é a natureza polimorfa da sua força
interpretativa e o estilo surpreendente das suas linhas de fuga.
CARLOS FRANÇA (Sobre “Invisualidade da
Pintura”)
Sul Caravaggio c'è ancora molto da dire,
specialmente per quanto riguarda il forte contrasto chiaroscurale. Il Suo
piccolo libro rappresenta un'importante scelta di campo e sono certa che sia un
contributo che aggiunge qualche cosa di nuovo.
MINA GREGORI (Sobre “Deus e Caravaggio”)
18/10/2015
Museums......
Noah Fischer, Photo: Joanna Warsza
.....Today museums are an important part of the neo-liberal system, which we are protesting on Wall Street. Museums are like temples of this system, actually; they reproduce the logic of the system, reify its symbols, and are financially dependent on it. Actions by Occupy Museums are about opening up a very large, honest, transformative conversation about the presence of money and power in the world of art and culture... (Ler mais / read more)
10/09/2015
João Castro Silva «Draperies» - Sala do Veado, Lisboa
Exposição de João Castro Silva, Draperies, na Sala do Veado
Ensaios do Ver
Panos ao vento, tentativas de redenção. Sobrevidas. Migrantes.
Barcos manhosos, roupas molhadas, rasgadas. Subvidas. Migrantes.
As tábuas flutuam, as roupas encharcam-se, as vidas submergem. Migrantes.
As tábuas unem-se em frágeis jangadas em águas imprevisíveis. Migrantes.
João Castro Silva, Draperies, 2015
Sala do Veado até 27 de Setembro de 2015
Rua da Escola Politécnica, 56 / 58, Lisboa
A migração das formas por entre
matérias permite imprevistas trocas semânticas. A migração das ideias por entre
as formas elucida os espíritos. Interrogamo-nos sobre a vida como um todo maior
do que ela é. A arte traz-nos essa outra realidade onde pode confluir tudo o
resto que desejarmos ter como referente. Sem limites ou preconceitos,
deixemo-nos migrar para a obra com tudo o que somos.
João Castro Silva consegue
incorporar na madeira a ductilidade da água, a leveza do ar, o peso da pedra, a
uma estranha espacialidade de luz.
A matéria-prima é madeira de
árvores que vencem o nosso tempo, podendo viver na casa dos milhares de anos. A
matéria-prima advém de entes de metabolismo mais lento do que o nosso, de
verticalidade extraordinária dos seus 70 m de envergadura, com folhas que
lembra vegetações de épocas muito mais antigas. A matéria-prima tem um odor
agradável e é rosada como a pele do escultor, leve e com uma densidade de 300 a
420 Kg por m3. A Criptoméria-japónica,
um tipo de cipreste oriundo da China ou Japão, é hoje endémica em muitos outros
locais do mundo, como nos Açores, onde se sobrepôs à floresta autóctone da
Laurissilva. É uma forte e resistente, daí o ser uma árvore de culto,
envolvendo os santuários e os templos nipónicos.
A madeira é, das matérias-primas
da escultura, aquela que mais próxima está da natureza humana. Ao deixar de ser
árvore e passar a ser obra de outro arbítrio, transmuta-se e alcança uma outra
natureza, aquela que a Humanidade almeja a da Arte ou a do espírito, as que
não têm matéria e se cumprem através da matéria do Outro. O escultor dá-lhe
outra natureza, não desprezando, no entanto, tudo o que carrega desde a sua
origem, por mais desconhecidos que sejam os seus percursos.
O valor semântico de cada peça exposta é tão expressivo, eloquente e
diverso, que remete o observador para uma transcendência, transformando-o em
contemplador. E também modifica o espaço. Sacraliza-o. O balancear, parece
existir e ser permanente, comprometendo o olhar e a preceção do ar em
movimento.
As cisões entre as tábuas marcam o todo como veias ou como sulcos de
navalha. Ou como um simples padrão riscado de roupagem que já foi vestida. As
ideias irrompem à medida que os olhos afagam as superfícies. A delicada leveza
das peças e da instalação surpreendem por contrariarem o próprio conceito de
matéria esculpida. O têxtil sobrepõe-se-lhe. A ideia sobrepõe-se à matéria. De
facto as peças parecem levitar a cima do chão com a ajuda do ar. Ao circular
por entre elas percebemos a sua verdadeira natureza, mas aí já a nossa perceção
nos encantou. Jogar com estes limites e saber não cair em redundâncias
estéticas redutoras ou híper habilidades, demonstra uma criação e saber fazer
de mestre. Por instantes vem-nos à memória o assombramento dos Abakans de Magdalena Abakanowicz (1930),
os vultos suspensos dos Pronomes de
Ana Vieira (1940), a fragilidade cenográfica das instalações de Kaarina
Kaikkonen (1952). Também existe o travo de algum acampamento improvisado de
migrantes ou de vivências já desusadas da urbanidade mediterrânica.
As tapeçarias alvas, dependuradas em linhas vagas que unem vão a vão e
recortam o espaço, são cortinas, separações que escondem do olhar para além de
si. Podem ser mortalhas, sudários, mantéis. Podem ser tudo aonde a imaginação
ilusória nos transporte. Podem referenciar-se como absurdos ou fascínios,
grandes utopias ou pequenas verdades.
Mas são esculturas relevadas em madeira. São trinta e nove peças com
escala humana, variando entre os 70 e os 100 cm em altura ou largura, em que o
espessamento não ultrapassa os 7 cm. O escultor primeiro une tábuas isoladas,
depois talha-as como se fosse santeiro tradicional vestindo alguma figura
mística. Castro Silva é também o imaginário mas já só cria abstrações, ou os
panejamentos que cobririam hipotéticas figuras. Fá-lo com ferramentas
semelhantes mas mais rápidas, numa associação da energia própria ao escultor
com a que a eletricidade lhe faculta. O polimento final é também semelhante ao
que o imaginário dá à sua imagem e é do domínio da pintura. A pintura encobre a
matéria e obriga-a a fingir-se mármore, pele, aumentando o protagonismo
semântico das obras.
As cortinas encobrem o que se
pretende mais íntimo. A vida é comunitária. Por mais que pareça contraditório.
O tecido cobre e mancha-se. A água retira essas marcas, o ar seca-as. Como
animal que lambe as feridas para as sarar. A arte sara. É curativa como Louise
Bourgeoise (1911-2010) percebeu.
Estamos no ano de 2015 da era de Cristo. Os náufragos do Mediterrâneo
são deuses adormecidos como nós. Cada um é um nós. A dor é sempre coletiva,
assim como o medo ou a gratidão. A fuga pela sobrevivência é comum a todo o ser
vivo. Quando se é migrante procura-se porto seguro junto de outros mais
imparciais. Migrar de um para outro é reconhecermo-lo em nós. Civilidade é
perceber-se isso e construir sociedades que se cumpram nesse desígnio.
A acuidade percetiva possibilita sentir o outro ‑ a dor, o desejo, o
júbilo. A mesma perceção que possibilita que sejamos amantes da Arte, porque ao
amar o Outro é para nós que nos dirigimos. Por isto a Arte é o sustentáculo da
civilidade e por isso é tão importante saber senti-la, reconhece-la e vê-la. E
se possível exercita-la, como João Castro Silva nos sugere.
A exposição instalativa Draperies
do escultor João Castro Silva (1966) está a decorrer em Lisboa, na Sala do
Veado do Museu de História Natural e da Ciência, até ao dia 27 de setembro de
2015. O museu fica ao Príncipe Real, na Rua da Escola Politécnica, junto ao
Jardim Botânico, onde pode passear sob a sombra de uma Criptoméria-japónica. Silenciosamente consigo, entre pela porta da
antiga faculdade das Ciências da Universidade de Lisboa e migre pela
instalação. Construa o seu barco.
Dora Iva Rita
Lisboa, Setembro de 2015
Lisboa, Setembro de 2015
29/08/2015
A Sala de Ruth - Cadavre Exqui
Cadavre Exqui, é uma exposição colectiva de Ana Eliseu, Bertilio Martins, Ivo, Manuel Furtado dos Santos, Margarida Palma, Miguel Andrade, Oona Grimes, Pedro Proença, Samuel Rama e Susanne Themlitz com obras produzidas a partir de intervenção sobre a gravura «Atlantis» (1971) de Bartolomeu dos Santos.
22/08/2015
A Sala de Ruth - Miso Ensemble
(anterior)
A Sala de Ruth III
Itinerário do Sal pelo Miso
Ensemble
Assim
como as características do céu estabelecem circuitos racionais para uma
compreensão do todo, as características físicas, os ecossistemas endógenos e
exógenos, a criatividade na resolução das adaptações ao meio, são determinantes
na linguagem dos pássaros.
Esta
“linguagem dos pássaros”, como gosto de lhe chamar, eclodiu ontem, pelo início
da noite, na Sala de Ruth, em Tavira.
Esses entes semelhantes a pássaros são os Miso
Ensemble. Três em um, ou em vários, que fomos todos os que assistimos ao
espetáculo multimédia de Miguel, Paula e Perceu Azeguime. E muitos mais haverá
por detrás da produção de Itinerários do
Sal, uma “opera”, como é caracterizada pelos autores. Um bando de pássaros.
Dos mais criativos, dos mais genuínos, dos mais salubres. Têm o mesmo tempo da
Casa das Artes de Tavira, onde atuaram pela primeira vez, entre amigos, como
hoje na Sala de Ruth.
Enquanto
nos pássaros da mesma espécie a linguagem é semelhante, na comunidade dos
Homens, existem por vezes alguns de entre os demais, de onde emergem grandes
criações com a mesma qualidade e teor. “Quase como por acaso” uns deixam-se
penetrar, mais do que os outros, por essa linguagem expressiva, onde todas as
artes se misturam e atuam em cooperação com o autor, assim como ele o faz
também, como passarinheiro que se deseja pássaro. Com um aparente desgoverno,
os autores demonstram uma concentração absoluta, Paula e Perceu aos comandos de
uma eletrónica aracnídea, Miguel liderando o cumprimento da rigorosa expressão
humana da obra, tornando-a leve e natural como o sopro de um improviso. O
desempenho demonstra o empenho, a autenticidade e fundamentalmente o grande
fascínio de fazer arte.
O
verão está a terminar, seguir-se-ão outros. O céu indicia um agravamento
atmosférico. Os cirros começaram por se pintarem de pôr-do-sol, instalando-se
pouco a pouco durante os dias. Paredes de estratos e limbo-estratos trouxeram
cortinas húmidas à altura do olhar durante a noite. O cheiro da erva seca
molhada, misturada com humidade da maresia, invade o coração de emoções
contraditórias. O frio parece ter-se instado. A ausência de vento acalmou a
superfície do mar. Os cúmulos adensam-se e ameaçam no horizonte. Mas a batalha
desenvolve-se nas camadas mais altas da atmosfera. Estou satisfeita pela
releitura do The Weather Hand Book.
Esta pequena obra lavou as mágoas da História dos homens.
Bartolomeu
Cid dos Santos (1931-2008) comove pela singeleza irónica com que conta a guerra
e as atrocidades das batalhas. Mickey, toma lugar do herói onírico,
metamorfoseando-se em besta de um olhar a outro. Encontramo-lo nos planos mais
próximos de nós, reproduzido como num caleidoscópio ébrio. Não percebemos quem
é quem. Não tomamos partido. Só sentimos a tremenda ironia da ligação entre a
raiva, o desespero e a euforia. Sentimos a poeira do ar inquinado, o ruído
surdo, o pisar dos corpos que não conseguiram vencer a gravidade. Ao fundo as
bandeiras agitam-se no ar. Vitórias ou derrotas são irrelevantes, como nos
jogos infantis... A estranha luta que a ambição, a especulação ou a avareza
provocam, dão o mote para esta obra.
Bartolomeu
Cid dos Santos doou uma grande parte da sua obra à cidade de Tavira, que não
tem mãos para a receber. Deixou-lhe também, através do patrocínio da Casa das
Artes de Tavira, uma oficina de gravura idêntica à sua em Londres, na Slade
School of Fine Art, onde lecionou e trabalhou. Hoje o seu espírito continua a
renascer trabalho após trabalho, residência após residência. A Casa das Artes
de Tavira, quando transborda, vai para a porta da Oficina Bartolomeu dos Santos
(OBS) e senta-se nas escadinhas que ligam a colina de Sant’Ana ao plano das
águas do rio Gilão. Como uma nesga de teatro grego, geralmente, um ecrã faz as
vezes de proscénio improvisado e o patamar da porta da OBS transforma-se em
terreiro da orquestra. Não existe altar porque as oferendas são intrínsecas à
arte.
A
última atividade calendarizada para este verão, Cadavre Exquis, é precisamente a apresentação pública das obras
produzidas a partir de interações diversos autores sobre uma das gravuras de
Bartolomeu, Atlantis de 1971.
Como
o Miso Ensemble, diremos que os itinerários do sal são poderosíssimos, embora
hoje em dia pouco valorizados. Estando num tempo de interrogações a todos os
níveis, a instalação de Ilídio Salteiro, Sala
de Ruth, propõe uma paragem para refletir e pensar os rumos que se
apresentam ao mundo e à arte contemporânea.
Dora Iva Rita, Santa Bárbara de
Nexe, agosto de 2015.
21/08/2015
A Sala de Ruth II
(anterior)
A Sala de Ruth II
A Casa das Artes de Tavira
Há
quem se sente e toque o piano ou simplesmente lhe experimente o som. Há quem se
sente e folheie uma revista. Há quem todos os dias, já noite, lá entre, bebendo
um copo, para ver um pouco do documentário do ídolo da sua juventude holandesa.
Também já vi crianças espalhadas pelo chão a manusearem livrinhos. Há quem
apenas se sente para contemplar melhor as obras expostas na Sala de Ruth. Eu vou lá para encontrar
os amigos que já não são apenas estivais. Tudo isto, para além dos encontros e
atividades calendarizadas.
Contemplar
uma obra de arte é mais do que tropeçar na vertigem do rompimento do
quotidiano. É dialogar com coisas, de aparente natureza inerte, mas que se
revelam agentes ativos, atuantes e extraordinariamente permeáveis a quaisquer
referentes. A contemplação das obras de arte visuais pode ser tão profunda, completa
e gratificante quanto a audição de uma obra musical ou a leitura de um texto
literário. A contemplação é um “aCto” distinto, que nos sugere e orienta para a
experimentação de níveis diferenciados nas abordagens à vida. Se para isso
estivermos disponíveis e, acima de tudo, se o desejarmos…
Há
dois dias que acabei de ler os volumes da História
das Perseguições Políticas e Religiosas de D. Fernando Garrido, acabando
pelas desventuras nacionais entre constitucionalistas e absolutistas. Há dois
serões que me sento na sala da Ruth a observar e a escrever mentalmente sobre
as obras que tem colecionado. Quando tenho dúvidas é através delas que recebo
as respostas.
Marcelino
Vespeira (1925-2002) promete-nos um sensível esclarecimento de sensualidade e
liberdade ‑ a gestação da semente que refulge, vibra e cresce, como núcleo da
obra. A luz-pássaro-pomba que se liberta energicamente denuncia o momento da
eclosão. O desfrute do colo feminino solto de uma qualquer árvore, pronto a
reproduzir-se. Célula. Acto de amor no limite mais essencial do enigma, como
Vespeira sempre desejou a vida.
Pouco
se fala de amor na minha leitura estival. Mas nas entrelinhas adivinham-se
grandes afetos, dignos de gente em extremos limites vitais e que faz grandes
provas disso.
As
cores fortes de Pedro Proença (1962) desfazem-se em nuvens de algodão de feira.
Doces e pegajosas a lembrar narrativas da infância. Espessas, “matéricas” e
fortes. Imprecisa é também a representação e a interação entre os diversos
personagens, desenhando-se uma deambulação nos corredores da irracionalidade,
entre a brincadeira, o ludismo e o drama.
Tão
estranha como a história, descrita na minha leitura, das duas meninas que
brincavam com um gatinho vestindo-o de trapos, restos dos seus vestidos. Assim
brincavam com o animal doméstico. Infelizmente os trapos eram azuis e brancos.
Alguém viu o gatito assim ataviado e as crianças alegres. Alguém as denunciou.
Foram presas, assim como suas mães, e passaram cinco anos nos calabouços.
Decorriam os anos de 1827-1832 na cidade da Guarda.
Imagino
sobre uma tela um duelo de brincar entre João Vieira e João Manuel Vieira (1934
e 1962), pai e filho a pintarem à desgarrada. A paleta vibra e as formas
encontram significâncias perigosas, arremedos que um e outro fazem. Punhais,
pregos, triângulos vermelhos. Jogos perigosos mas fraternais. As cores
vibrantes contrastam, discutem e assumem-se umas perante as outras. Nem uma
letra, nem uma palavra. Mas a máscara existe, e a figura central, de olhos
vazados, é azul…
D.
Miguel perseguia o azul. Tudo o que refletisse a luz nesse comprimento de onda
simbolizava o seu inimigo, portanto deveria ser perseguido, preso, torturado
para que confessasse a infâmia. Eventualmente liquidado. Mulher portadora
inocente de xaile azul a cobrir os ombros, seria por isso incomodada. Nem
aqueles cujos olhos fossem de sua natureza azuis escapariam à fúria do rei
usurpador. Não sei o que pensaria D. Miguel do céu ou do mar… Também custa
acreditar que as fontes da minha leitura sejam verdadeiras… (Mas é geralmente
pela inacreditável irracionalidade da brutalidade que os povos acabam por
consentir que ela lhes invada e se acomode no quotidiano).
Na
Sala de Ruth olhamos para cima do piano e defrontamo-nos com uma obra
monocromática, com tom escuro, equivocamente situada entre o magenta, o violeta
e o púrpura. O suporte é um segmento circular, com a base horizontal
corresponde ao segmento da corda. As linhas são determinadas pelos
altos-relevos que se sobrepõem e apenas se percecionam pela sombra que projetam
no plano que lhes é inferior. Nesse suporte de forma invulgar, Manuel Batista
(1936) evoca topografias de um imaginário racional, como se de maqueta
territorial se tratasse, anfiteatros irregulares sobre praças de geometria
regular. A geometria dos planos mais baixos contrapõe-se inesperadamente às
arritmias das regiões superiores. Destes estranhos anfiteatros podemos antever
o poder do mapeamento e da normalização que pode advir através do conhecimento
com que nos guia. Mas sobre este mapa tridimensional podemos sobrepor diversos
referentes e, seja ele qual for, a coerência será semelhante e o debate
interior riquíssimo.
Existem
livros que foram lidos há tempos que a memória esquece, mas que construíram o
que somos. Gosto de repescar da estante livros já lidos, principalmente quando
desejo fazer pausa daquilo que me comprometi fazer na vida. “Quase como por
acaso”, são chamados de novo à experimentação, a um novo teste, no embate
daquilo que sou com aquilo que cada um deles me pode ainda dar. Ontem descobri ‑
redescobri, melhor dizendo, Mitos e
Símbolos na Arte e Civilização Indianas (Lisboa, Assírio & Alvim,
1997), uma compilação de conferências proferidas em 1942 por Heinrich Zimmer
(1890-1943). Recordo-me do quanto foi importante para me situar corretamente num
entendimento das questões relacionadas com a filosofia oriental. Na sua
releitura, ontem e hoje, aferi se o referencial, que durante estes anos tenho
seguido nestes temas, ainda é coerente com o seu pensamento. Senti-me a reler
um mapa mental antigo… Neste mapa, as curvas de nível são a poética da cultura
e da arte orientais, caminhos por onde se pode ter ainda acesso às praças que
fui edificando.
Em
cima do mesmo piano está uma escultura de Jorge Vieira (1922-1998), pesada do
cobre que a configura. A sombra que a forma projeta, empurrada pela lisura
firme da luz dos leds, contém a mesma
riqueza pictórica da pequena peça, sendo tão expressiva quanto a obra. O que
representa pouco importa de tão genuína ser a forma, podendo-se identificar
seres de qualquer espécie. Têm dos vegetais e dos insetos a elegância da leveza
ao ar, a fluidez de uma cascata ou a rotundidade das pedras trazidas pela água,
dos humanos um incandescente erotismo. Pode invocar um trajeto de glorioso amor,
uma qualquer vitória revolucionária, veleiro de dois mastros ao acostar ao
destino.
Há
momentos assim, plenos, sobretudo ligados à arte. Aqueles que se constituem de
música são os mais eficazes. Na vida quotidiana ganham-se dificilmente, mas
perdem-se muitíssimos mais no limbo das hipóteses menosprezadas. Desses poucos
momentos que nos chegam, alguns existem durante o sono, no sonhado e,
frequentemente, não são reconhecidos. Outros nos diálogos, nas leituras, no
sonho dos livros, das escritas e das ideias. Estes momentos são salvíticos e
sempre transcendentes. Daí haver quem acredite serem obra de divindades. Mas
são apenas Arte manifesta e a particularidade do que a qualifica como tal.
Dois
retratos angulam-se num dos cantos da sala da Ruth, um formado pela memória
icónica dos despojos na obra de Costa Pinheiro (1932), outro pela intensidade da
ingenuidade que transparece dos rostos. Reconhecer o outro pelo hábito é
recusar de certa forma a profundidade do ser. Apresenta-se pois como ofício
indireto do retratar, um equívoco entre a paisagem, a memória e o carisma.
Institui-se mais pelo desígnio descritivo do que pela essencialidade de ser
criatura. Ivo reconstitui-se, quase perdido de tão ingénuo, na sua autorrepresentação.
Oferece-se assustado por quem o olha. Abdica da postura empática, renunciando
aos prováveis diálogos que atravessarão a representação do seu rosto. Estranho
o drama de se retratar recusando o embate da comunicação elaborada. A cor ilumina-o
centralmente. O olhar retrai-se. Um retrato que foge sem se retirar. De outra
forma, diferente da utilizada por Costa Pinheiro, apenas retraindo-se até ao
não mais saber de si.
Uma
outra leitura de férias foi um pequeno e completo The Weather Hand Book. Escrito por Alen Watts (Shrewsbury,
Weatherline Books, 1994), permite-nos organizar o nosso raciocínio frente ao
céu e perceber o que preconizam as formas, as cores e os movimentos do ar,
quando remetido para o céu e para as nuvens. Os indícios são, provavelmente, os
mais fortes argumentos para se tomarem decisões acertadas. É bom poder perceber
se amanhã vai estar estio ou se de madrugada vai haver borrasca. É bom e dá
segurança, aquela que dantes a cultura tradicional tinha e que permitia a
confiança das trocas sem colonialismos.
O
Nuno Calvet (1932) dá-nos a maioridade estética através duma prova fotográfica.
O que parece improvável é realçado. É como deixar de ver figuras imaginárias
nas nuvens e passar a olhá-las objetivamente, exatamente aquilo que são. É
descobrir o fascínio estético sem efabulações nem fantasias. Mas deixando a permissão
para todas as possibilidades de autenticação icónica.
Pela
observação dos indícios, quando estamos demasiado perto, não nos podemos
aperceber que aí vem uma grande tempestade. Como The Weather Hand Book, os períodos de paragem do trabalho são
fundamentais para perceber o todo, onde e como nos integramos.
Do
mesmo modo que na Sala de Ruth, a colecionadora de arte que expõe um conjunto
de trinta obras na Casa das Artes de Tavira, uma fantasia-fundamento de
deambulação estival pela contemplação estética das artes visuais. “Quase como
por acaso” a Sala de Ruth abre as
suas portas como uma opção redentora de muitos conceitos.
Dora Iva Rita
20/08/2015
Sala de Ruth - Half o'clock
Concerto com Nuno Ferreira na guitarra e Patrícia Proença na bateria, na sala da Ruth, na Casa das Artes de Tavira, no dia 20 de Agosto
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