01/06/2026

Depois da ARCO Lisboa 2026 e Edgar Morin

Como o Mundo pode ser dividido de muitas formas, uma delas é a seguinte: por um lado, temos a cultura, por outro temos a ignorância. Seres cultos e seres ignorantes coexistem.
Os seres cultos valorizam o conhecimento.
Os seres ignorantes valorizam o custo das coisas (o dinheiro).
Hoje com os meios de comunicação que temos ao nosso dispor, a opção por estar de um lado ou de outro é sempre da nossa responsabilidade com a ajuda de quem nos acompanha.
Um e outro lado podem ser ricos e pobres, mas quase sempre aquele que apostou na ignorância e não atingiu o objetivo do dinheiro, dificilmente se sentirá rico. Pelo contrário, o culto, possui a riqueza total em qualquer circunstância.
Mas as coisas que o dinheiro pode comprar dá por vezes aos ignorantes o poder imenso sobre todos e sobre tudo.
Com esse poder o ignorante pode comprar a cultura. Mas passará a ser culto?
Um ser culto, envolto pela consciência do conhecimento, só releva o poder do conhecimento.
Esta complexa relação, aqui extremamente simplificada, englobando vetores sociais como pobreza, riqueza, ignorância e cultura, estão na base da valorização da arte contemporânea atual, ou seja, das opções estéticas de hoje, definindo paradigmas que se intrincam na sociedade, semeando a confusão da arte contemporânea como estilo.
Mas a arte contemporânea e estilo são assuntos diferentes. A arte contemporânea é simplesmente aquilo que cada um de nós faz. Seja eu, sejas tu, seja ele ou sejamos nós. Independentemente do que se faz, a arte contemporânea é a que nasce no nosso tempo. É isso que o caracteriza e é isso que o irá definir. Quando não é assim, a ignorância faz um apagão na História (memória, pensamento e conhecimento) começando tudo de novo, como um palimpsesto.
A cultura é o que não permite que se faça o apagão da ancestralidade humana.
A arte contemporânea é apenas uma designação do fazer que a humanidade realiza no tempo presente em perpetua evolução espacial. É apenas uma vaga em movimento no percurso do espaço / tempo a que estamos condenados a viver.
As coisas que fazemos no tempo presente, não podemos vê-las como um novo estilo (arte contemporânea) porque isso será fazer tabula rasa do tempo passado, ignorando a filosofia, a estética, a sociologia, a antropologia, enfim, sem pensamento, sem humanidade.
Os estilos são pensamento estético, filosófico. Correspondem a uma razão, a uma existência, a uma revelação, a uma imanência. São individualidades sem tempo nem espaço, sempre presentes. O clássico é sempre clássico. O gótico será sempre gótico. O românico será sempre românico. A arte do renascimento e o neoclassicismo serão sempre momentos que recuaram ao classicismo primordial para reinventarem a humanidade. O barroco, o rococó e o maneirismo existem tanto no passado como hoje. A individualidade humana, com a «liberdade guiando o povo», deu origem ao realismo, ao romantismo, ao simbolismo, ao impressionismo, ao naturalismo, ao expressionismo, ao abstracionismo, ao cubismo, ao construtivismo, ao neoplasticismo, ao surrealismo, ao minimalismo, etc.
Todos estes estilos coexistem como modos de fazer, de pensar e de ser. Coexistem tanto nos seus protagonistas, que os edificaram, como em nós como o alimento cultural que transportamos sempre e o qual nos permite saber quem somos, de onde vimos e para onde vamos.
Se não tivermos cultura, se não tivermos esse alimento, seremos detentores de uma cegueira pura que perigosamente pode levar-nos pelos caminhos da barbárie que contemporaneamente vivemos.
A cultura é o único sinal de riqueza de um povo.
Será assim que podemos sinalizar todos os pensadores como os homens mais ricos do Mundo, como o recém-falecido Edgar Morin, enquanto os homens mais pobres deste mesmo Mundo serão todos os oligarcas que contemporaneamente andam a dizimar a humanidade fomentando políticas ignorantes de constante tabula rasa em todos os setores da sociedade.

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