Como o Mundo pode ser dividido de muitas formas, uma delas é a seguinte: por um lado, temos a cultura, por outro temos a ignorância. Seres cultos e seres ignorantes coexistem.
Os seres cultos valorizam o conhecimento.
Os seres ignorantes valorizam o custo das coisas (o dinheiro).
Hoje com os meios de comunicação que temos ao nosso dispor, a opção por
estar de um lado ou de outro é sempre da nossa responsabilidade com a ajuda de
quem nos acompanha.
Um e outro lado podem ser ricos e pobres, mas quase sempre aquele que
apostou na ignorância e não atingiu o objetivo do dinheiro, dificilmente se
sentirá rico. Pelo contrário, o culto, possui a riqueza total em qualquer
circunstância.
Mas as coisas que o dinheiro pode comprar dá por vezes aos ignorantes o
poder imenso sobre todos e sobre tudo.
Com esse poder o ignorante pode comprar a cultura. Mas passará a ser
culto?
Um ser culto, envolto pela consciência do conhecimento, só releva o
poder do conhecimento.
Esta complexa relação, aqui extremamente simplificada, englobando vetores
sociais como pobreza, riqueza, ignorância e cultura, estão na base da valorização
da arte contemporânea atual, ou seja, das opções estéticas de hoje, definindo
paradigmas que se intrincam na sociedade, semeando a confusão da arte
contemporânea como estilo.
Mas a arte contemporânea e estilo são assuntos diferentes. A arte
contemporânea é simplesmente aquilo que cada um de nós faz. Seja eu, sejas tu, seja
ele ou sejamos nós. Independentemente do que se faz, a arte contemporânea é a que
nasce no nosso tempo. É isso que o caracteriza e é isso que o irá definir. Quando
não é assim, a ignorância faz um apagão na História (memória, pensamento e conhecimento)
começando tudo de novo, como um palimpsesto.
A cultura é o que não permite que se faça o apagão da ancestralidade
humana.
A arte contemporânea é apenas uma designação do fazer que a humanidade
realiza no tempo presente em perpetua evolução espacial. É apenas uma vaga em movimento
no percurso do espaço / tempo a que estamos condenados a viver.
As coisas que fazemos no tempo presente, não podemos vê-las como um
novo estilo (arte contemporânea) porque isso será fazer tabula rasa do
tempo passado, ignorando a filosofia, a estética, a sociologia, a antropologia,
enfim, sem pensamento, sem humanidade.
Os estilos são pensamento estético, filosófico. Correspondem a uma razão,
a uma existência, a uma revelação, a uma imanência. São individualidades sem
tempo nem espaço, sempre presentes. O clássico
é sempre clássico. O gótico será sempre gótico. O românico será sempre
românico. A arte do renascimento e o neoclassicismo serão sempre momentos que
recuaram ao classicismo primordial para reinventarem a humanidade. O barroco, o
rococó e o maneirismo existem tanto no passado como hoje. A individualidade
humana, com a «liberdade guiando o povo», deu origem ao realismo, ao romantismo,
ao simbolismo, ao impressionismo, ao naturalismo, ao expressionismo, ao
abstracionismo, ao cubismo, ao construtivismo, ao neoplasticismo, ao
surrealismo, ao minimalismo, etc.
Todos estes estilos coexistem como modos de fazer, de pensar e de ser. Coexistem
tanto nos seus protagonistas, que os edificaram, como em nós como o alimento
cultural que transportamos sempre e o qual nos permite saber quem somos, de
onde vimos e para onde vamos.
Se não tivermos cultura, se não tivermos esse alimento, seremos
detentores de uma cegueira pura que perigosamente pode levar-nos pelos caminhos
da barbárie que contemporaneamente vivemos.
A cultura é o único sinal de riqueza de um povo.

