31/12/2025

Arte pela Arte - 2025

 


arte pela arte - 2025

Quando na conferência que foi dada na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos em Tavira foi-me perguntado algo que tinha a ver com a arte pela arte. Não me recordo o que respondi. Mas este assunto constituiu uma inquietação positiva.

Estávamos nesse momento a falar de Arte, Liberdade e Criatividade, no contexto das comemorações do 25 de abril de 1974.  E por razões óbvias a nossa conversa incidiu mais sobre os anos 70, a década.

Esta questão, arte pela arte (Parnasianismo,) fez-me repensá-la, a ponto de efervescer o meu pensamento.

Nos primeiros anos do século XXI a questão da arte pela arte e a arte por causas, dominou o meu pensamento e influenciou o meu processo. Questionava-me se a arte deveria ser feita apenas por causa dela própria, a forma, ou se deveria ser feita por uma causa exterior a si.

Nesse momento, afastando-me do pensamento da arte pela arte aproximei-me da minha própria causa: combater a unânime e irritante aceitação de um mundo unipolar confluente para um grande e único centro: o centro do mundo à maneira de Roma, Paris, Nova Iorque, etc.

Procurando contrariar esta unipolaridade, foi feita obra plástica ao longo de cerca de dez anos que foi exposta numa instalação no Museu Militar de Lisboa. Esta exposição foi dividida em quatro eixos: museu, stress, ícone, mapa. O museu como preservação, stress como a relação espaço tempo, ícone como referência e mapa como caminho. O corolário desta exposição ficou no título: O Centro do Mundo é aqui (2013), assinalando exteriormente o Museu Militar de Lisboa.

Neste acontecimento foi dito que o centro do mundo é onde cada um de nós está ou é o lugar que cada um de nós queira nomear como tal. E neste caso, deste acontecimento, o Museu Militar entre maio e setembro, foi por mim nomeado como Centro do Mundo.

Infelizmente esta mensagem, que é resumidamente uma recusa do conceito de periferia, foi pouco entendida e pouca relevada, como se se estivesse a dizer algo de muito óbvio. Todos sabemos que o centro do mundo é onde nós estamos, mas continuamos a aceitar nos coloquem numa situação, periférica, e alegremente trabalhamos nesse sentido em todas as áreas do conhecimento, nesse sentido.

Esta causa estruturou o nosso trabalho artístico. Ela resultou de tudo o que de inquietante se passava no mundo na primeira década do século XX: geopolíticas, mundos unipolares, multipolares e nova ordem mundial. E foi confrontada com outras causas, que sublevaram outros temas, modos e processos, em torno de uma espécie de agenda temática, com muito efeito na arte contemporânea que sendo absolutamente válida, também é promotora de uma arte militante em três alíneas: ambiente, colonialismo e género, salientando apenas uma das muitas funções da arte: a arte como educação para a cidadania.

Assim percebemos que, genericamente, todos continuamos a aceitar uma filosofia social gerida por um sistema unipolar, com grandes potências a digladiarem entre si o centro do mundo, arredando todos nós (nações ou indivíduos) para círculos periféricos dispostos hierarquicamente.

Essa agenda temática introduzida, sendo muito pertinente, afastou-nos da causa principal que seria compreender que cada um de nós (nações e indivíduos) é efetivamente o centro do mundo. Verifiquei cedo ser uma utopia. Estava convicto de que cada ser humano tinha adquirido maturidade e responsabilidade para ser um centro. Mas não tem sido isso que aconteceu. O ser humano continua carente de um centro do mundo que organize a sua liberdade, procurando ajuda de centros do mundo quer sejam eles urbanos ou mitológicos. Não conseguimos, absurdamente, viver sem um «ícone», sagrado ou profano, que nos oriente neste mundo cheio de perigos, artificialmente induzidos.

Perante este panorama, ao longo destes anos, o que nos resta é simplesmente algo de supremo que orienta e que tem a verdadeira capacidade para transformar o mundo como sempre o fez: a Arte.

Não será fazer arte pela arte no sentido da procura da forma ao serviço da estética em si mesma. Também não fazemos arte pela arte no sentido do artista que tem de manter a marca expressiva nos seus produtos junto dos seus clientes ou fans.

Procuramos a Arte em muitas matérias sempre à procura da forma, como um processo de reflexão sobre o Todo. A Arte é sempre um objetivo e o que resulta da sua demanda é apenas um testemunho, um contributo, uma partilha, uma hipótese. Ela é estruturante de tudo, porque sem ela, o homem poderia existir, mas a humanidade não. A arte é espaço de investigação através dos modos mais diversos e em cada obra está exposta uma hipótese do mundo possível.

Assim, não estamos na Arte por causa da Arte, nem tão pouco por causa de uma expressão ou marca a manter. O nosso entendimento é de que a Arte é apenas o momento espaço / tempo para partilhar com os outros ideias, pensamentos e obras, perenes e atuantes, que vão discernindo e esclarecendo o mundo à medida que forem procuradas, partilhadas, estudadas e amadas.

 

 

Ilídio Salteiro

31 de dezembro de 2025

 

 

art for art’s sake - 2025

When I was giving a lecture at the Álvaro de Campos Municipal Library in Tavira, I was asked something that had to do with art for art's sake. I don't remember what I answered. But this subject constituted a positive concern.

We were at that moment talking about Art, Freedom and Creativity, in the context of the commemorations of April 25, 1974. And for obvious reasons, our conversation focused more on the 70s, the decade.

 

This question, art for art's sake (Parnassianism), made me rethink it, to the point of stirring my thoughts.

In the first years of the 21st century, the question of art for art's sake and art for causes dominated my thinking and influenced my process. I wondered if art should be made only for its own sake, the form, or if it should be made for a cause external to it.

 

At that moment, moving away from the idea of ​​art for art's sake, I approached my own cause: to combat the unanimous and irritating acceptance of a unipolar world converging towards a single, great center: the center of the world in the manner of Rome, Paris, New York, etc.

Seeking to counteract this unipolarity, a body of artwork was created over approximately ten years and exhibited in an installation at the Lisbon Military Museum. This exhibition was divided into four axes: museum, stress, icon, map. The museum as preservation, stress as the space-time relationship, icon as reference, and map as path. The corollary of this exhibition was the title: The Center of the World is Here (2013), externally marking the Lisbon Military Museum.

At this event, it was said that the center of the world is where each of us is, or the place that each of us wants to name as such. And in this case, at this event, the Military Museum, between May and September, was named by me as the Center of the World.

Unfortunately, this message, which is essentially a rejection of the concept of periphery, was poorly understood and underappreciated, as if something very obvious was being said. We all know that the center of the world is where we are, but we continue to accept being placed in a peripheral situation, and we happily work towards that goal in all areas of knowledge.

This cause structured our artistic work. It resulted from all the unsettling things that were happening in the world in the first decade of the 20th century: geopolitics, unipolar and multipolar worlds, and the new world order. And it was confronted with other causes, which raised other themes, modes, and processes, around a kind of thematic agenda, with a great effect on contemporary art, which, while absolutely valid, also promotes militant art in three areas: environment, colonialism, and gender, highlighting only one of the many functions of art: art as education for citizenship.

Thus, we realize that, generally speaking, we all continue to accept a social philosophy governed by a unipolar system, with great powers vying for the center of the world, relegating all of us (nations or individuals) to hierarchically arranged peripheral circles.

This thematic agenda, while very relevant, has distanced us from the main issue, which would be understanding that each of us (nations and individuals) is effectively the center of the world. I quickly realized this was a utopia. He was convinced that each human being had acquired the maturity and responsibility to be a center. But that is not what has happened. Human beings continue to lack a center of the world to organize their freedom, seeking help from world centers, whether urban or mythological. Absurdly, we cannot live without an "icon," sacred or profane, to guide us in this world full of artificially induced dangers.

In this context, over the years, what remains for us is simply something supreme that guides us and has the true capacity to transform the world as it always has: Art. It's not about making art for art's sake in the sense of seeking form in service of aesthetics itself. Nor do we make art for art's sake in the sense of the artist having to maintain an expressive mark on their products with their clients or fans.

 

We seek Art in many materials, always searching for form, as a process of reflection on the Whole. Art is always an objective, and what results from its pursuit is merely a testimony, a contribution, a sharing, a hypothesis. It is the structuring element of everything, because without it, man could exist, but humanity could not. Art is a space for investigation through the most diverse modes, and in each work, a hypothesis of the possible world is exposed.

 

Thus, we are not in Art because of Art, nor because of an expression or mark to be maintained. Our understanding is that Art is merely the moment, space, and time to share with others ideas, thoughts, and works, perennial and active, that discern and clarify the world as they are sought, shared, studied, and loved.

 

Ilídio Salteiro

December 31, 2025


05/12/2025

A Europa é um Arquipélago... e não sabe disso.


 Ilídio Salteiro, Europa é um Arquipelago, 2013. Impressão digital.

Exposto no Museu Militar de Lisboa em 2023 numa exposiçao intitulada O Centro do Mundo é aqui

Arte pela Arte - 2025

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