02/04/2009

A Pintura e os anjos

Sam-Taylor Wood, 2007




Há muitos, muitos anos, numa noite de intensa trovoada a minha avó justificava perante mim:
- São os anjinhos que estão a arrumar a casa.
Acalmei!
De imediato imaginei os anjinhos a arrastarem os móveis e, nos intervalos silenciosos da noite, conseguia vê-los a argumentarem uns perante os outros quais os melhores lugares para cada um dos móveis.
Sem duvidar da certeza da justificação muitas dúvidas surgiam diante de mim enquanto lá fora chovia copiosamente.
Os anjos teriam comprado móveis novos ou seria apenas uma mudança de local dos mesmos?
Será que colocam Pintura nas paredes?
E que tipo de Pintura?
Teria sido feita na terra, no céu ou em que lugar?
Será que a sua casa não tem paredes?
Fará sentido a casa dos anjos ter parede?
Que mundos se descobrirão nessa Pintura? O nosso mundo, o mundo dos anjos ou o mundo dos deuses?
Apenas me era difícil imaginar que os anjos existissem sem Pintura, porque foi esta que os gerou.
Ou será simplesmente que aquela trovoada não resultava da arrumação da casa dos anjos?
Prefiro pensar que sim, embora não saiba exactamente o valor deste sim.

01/04/2009

De que falamos quando falamos de Pintura

De que falamos quando falamos de pintura?
Este é o título da parte conclusiva de uma obra de Isabel Sabino (A Pintura Depois da Pintura, Lisboa, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Biblioteca d’Artes, 2000, pp. 227-230) cuja leitura, consulta ou estudo recomendo vivamente na sua totalidade.
Para responder aquela pergunta são formuladas duas hipóteses: «a pintura é apenas aquilo que só pode ser pintura» e «a pintura é o que diz respeito à pintura». Se com a primeira estamos na presença da Pintura remetida para o essencial de si própria, na segunda estamos no âmbito dos mundos que a Pintura experimenta.
A Pintura tem a idade do Homem e só findará quando ele.
Sobre ela é necessário que não hajam preconceitos, nem que se confundam os seus fundamentos com as tecnologias.
Os fundamentos da Pintura são um modo de pensar e de fazer, do mesmo modo que qualquer outro ramo do conhecimento.
As tecnologias correspondem aos lugares, aos tempos e ao conhecimento e estão ao nosso dispor sempre renovadas.
A Pintura, como toda a Arte, consegue frequentemente anteceder a Ciência por via da sua atitude interrogativa e experimental com práticas laboratoriais diárias. A fotografia e a física quântica são dois exemplos da capacidade de antecedência dessa lógica laboratorial cujo método, por se basear na amostragem da experiência e não na sua comprovação, não é reconhecido como científico.
Na actividade artística prevalece a imagem da obra concluída mas, para os produtores, esta é apenas a síntese de uma longa investigação vivida no espaço mágico onde os seus inventos nascem. Este espaço de magia e de invenções, por preconceitos românticos, tem sido entendido e arredado para o universo das emoções e das sensibilidade expressivas, não sendo visto como local de investigação cientifica.
No entanto por outro lado a Pintura tem-se servido da ciência para prosseguir na construção do seu devir como é o caso, e só para anotar tempos mais próximos, da tecnologia do acrílico, depois dos anos 50 e das tecnologias digitais, nas últimas duas décadas.

30/03/2009

Ser Pintura

Há muitos milhões de anos que a Pintura vem adquirindo um saber específico, sempre em constante acumulação, que lhe advém da sua actuação ao serviço do espírito humano.
É frequente designar-se a Pintura como uma das Artes que o Homem utiliza para enfrentar o destino da sua sobrevivência.
No entanto, não havendo dúvidas de que a Pintura é uma Arte, nem todas as pinturas o são. Por ventura procurarão e desejarão sê-lo; terão mesmo esse objecto explícito ou subjacente mas, será difícil admitir-se que «todas as pinturas do mundo» o sejam. E quando falamos em «todas as pinturas do mundo» estamos a referirmo-nos a qual dos mundos?
O que acabámos de referir em relação à Pintura poderia ser referido em relação a qualquer outra Arte, como por exemplo a Música. Admitindo que «todas as músicas do mundo» tenham sido compostas com o objectivo de serem Arte, certamente que nem todas o serão.
Mas esta confusão, a meu ver aparente, interessa a todos porque se tudo for Arte, todos os fazedores de Arte serão Artistas. Assim sendo, com este estatuto, fica garantida a qualidade de uma produção passada presente e futura, e esse Artista torna-se veículo aliciante para o mercado da Arte que, à partida, vê garantido o valor de um património mesmo quando este não estiver ainda realizado.
A vulgarização dos termos Arte e Artistas são habitualmente aplicados nos mais variados discursos e circunstâncias, mesmo em manuais de História da Arte, tornando difícil distinguir entre o genérico e o essencial.
Estamos apenas perante uma aparentemente ingénua confusão entre a aplicação da palavra Arte umas vezes como adjectivo e outras como substantivo de acordo com conveniências
Concluindo dizemos apenas que, entre o «ser Arte e ser Artista» e o «ser Pintura e ser Pintor», estes são sobretudo «seres substantivos». (I. Salt. 2009)

02/10/2008

Pedro Calapez na Casa da Cerca

Porta na Igreja da Santissíma Trindade em Fátima, 2oo8

Porque de Pintura se trata, sugiro uma viagem à outra banda do rio, à Casa da Cerca, onde encontrarão um vasto conjunto de trabalhos de Pedro Calapez sob o título «Branca e neutra claridade» que, estou certo, vos enriquecerá tanto a vós como a mim.
Para obterem informações sobre horários da exposição consultem
Casa da Cerca e para uma análise mais detalhada da obra do Pedro Calapez iniciem a visita pelo espaço on-line, ou por bibliotecas.


04/09/2008

Aos meus amigos

Como estão?
Como sempre as férias acabam e ficamos à espera de mais.
É o caso neste momento.
Durante algum tempo mudei de vida: viajei para longe; nadei nas águas do mar, conduzi carros, bicicletas e tractores; cavei, colhi frutas, podei alfarrobeiras e pinheiros mansos e cozinhei para muita gente.
Mas amanhã tenho um exame, conversas, reuniões para planificações e etc.
Estou a tentar arrumar depressa tudo isto, para encontrar espaço mental para produzir Pintura ainda antes do final deste ano. As férias motivaram-me muito! Planos não faltam! Preciso de aproveitar este momento porque, no contexto contemporâneo, ninguém mais nos motiva...
E sobre a tua saúde. Já foram ao médico? Está tudo bem? Desejo muito que sim!
Gostava de dar noticias mais especificas sobre Pintura, sobre a minha Pintura; mas as certezas são iguais às duvidas e no final apenas estou cada vez mais concentrado em defini-la... como uma parte da Arte.
Talvez
aqui possas ver alguma coisa deste puzzle / poliptico / politico ainda em congeminação.
Um beijinho e um abraço
Ilidio

02/08/2008

Vinheta III - 20/33


I. Salt., 19. 54. N., 75. 09. W., (pormenor 20/33), óleo sobre papel, 150 cm x 200 cm, 2008.

01/08/2008

Vinheta III - 19/33

I. Salt., 19. 54. N., 75. 09. W., (pormenor 19/33), óleo sobre papel, 150 cm x 200 cm, 2008.

Antonio García López, curador de Paisajes Enlazados

«Paisajes Enlazados», Pintura de Ilidio Salteiro, em exposição na FBAUL até 27 de fevereiro